Acílio Lara Resende

A desigualdade social é a mancha que nos persegue
Publicado em: Qui, 04/04/19 - 03h00

A vergonhosa desigualdade social em nosso país é a grande mancha negra que nos persegue há séculos. Minha geração, em especial, foi constantemente provocada por ela, mas nunca se mostrou de fato disposta a lutar pela sua mitigação, já que sua eliminação foi, é e sempre será tarefa (quase) impraticável. Há exceções, entre empresários e políticos da “velha guarda”, mas que não justificam mudar o rumo do que quero dizer. A crise econômica de 2014 a 2018, embrulhada em sucessivas crises políticas – nas mãos do Partido dos Trabalhadores, uma legenda que, no início, mexeu com a esperança do brasileiro, mas depois fez o contrário do que pregava – é uma ameaça constante ao nosso futuro. Os dados existentes são de uma realidade simplesmente trágica.

Paulo Haddad, que passou por alguns cargos públicos importantes, em Minas e em Brasília, mas faz questão de se considerar somente um professor e economista, em artigo, na última segunda-feira, neste O TEMPO, deu-nos uma ideia do que existe hoje, de acordo com dados do Centro de Políticas Sociais da FGV: “Temos quase 24 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza, equivalente a 11,2% da nossa população, com um aumento de 33% entre o final de 2014 e o final de 2017, o que significa um número absoluto maior do que a população total do Chile. A miséria aumentou nos últimos quatro anos: são 6,3 milhões de novos pobres. Durante a crise de 2014 a 2018, o Brasil tornou-se uma economia recessiva em termos de crescimento, excludente em termos de desigualdades sociais e politicamente complacente com o avanço da miséria e do mal-estar social”.

A pergunta de Paulo Haddad sobre o que esperar do governo Bolsonaro “quanto à sua capacidade de mitigar essas mazelas socioeconômicas” é a mesma que faz a maior parte do povo brasileiro, de novo assustado com o que pode vir por aí. Ele tem muito medo dos que lutam hoje, com sinais trocados, pelo mesmo país do passado recente.

O presidente Jair Bolsonaro corre o risco de perder mais uma oportunidade histórica – a de transformar em realidade um futuro radiante e promissor para nosso país. Só agora, depois de quase cem dias de governo, ele se dispõe a “falar”, no Congresso Nacional, com os líderes partidários, considerados por ele profissionais da “velha política”. Sua principal meta seria a “nova política”, mas ele mesmo não sabe o que isso significa.

E o tempo passa, enquanto o presidente viaja: vai aos Estados Unidos, ajoelha-se diante do seu presidente e, o que é pior, sem nada trazer de volta; vai ao Chile e comete gafes ao se referir à sua cruel ditadura, da qual, graças ao seu bom povo, ficou livre; vai agora a Israel e consegue desagradar tanto a palestinos quanto a israelenses. O ato mais importante, em Jerusalém, foi deixar-se fotografar com um fuzil…

Instado, agarra-se agora à reforma da Previdência, contra a qual sempre se insurgiu, como se só ela bastasse ao país.

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