Acílio Lara Resende

A disputa de poder é prejudicial ao futuro do país
Publicado em: Qui, 21/03/19 - 03h00

Imaginava que já tinha visto tudo na política. De bom e de ruim. Hoje, tenho dúvidas. Jamais imaginei que passaríamos pelo mensalão, nem pela Lava Jato. Essas operações expuseram (a segunda continua expondo) os crimes cometidos por políticos e empresários. O lado bom? Sabermos que os malfeitores estão sendo punidos. Mas essas operações expuseram e expõem, também, a vaidade de muitos dos seus responsáveis diretos. Nada justifica que alguns dos seus operadores se transformem em intérpretes únicos da moral pública e, pretensiosamente, em formuladores exclusivos da Justiça brasileira.

A criação de fundação privada, nutrida por dinheiro público, a ser gerida por procurador aposentado, não foi boa ideia. Um acordo da Petrobras com o Departamento de Justiça norte-americano previu que a estatal pagasse parte da multa devida às autoridades brasileiras. O valor é de R$ 2,5 bilhões e já está na conta da Justiça Federal do Paraná. Essa dinheirama serviria para financiar ações anticorrupção. Em boa hora, a procuradora geral da República, Raquel Dodge, pediu ao Supremo Tribunal Federal a anulação desse acordo.

Decisão do Supremo Tribunal Federal deve ser cumprida, mas pode ser criticada. É inadmissível, porém, a campanha contra a instituição, indispensável à democracia. Críticos ligados ao presidente Bolsonaro pregam sua supressão. Outros, além da extinção, a intervenção militar. O motivo, agora, está na decisão do STF que diz que a Justiça Eleitoral deve ser o foro dos crimes ligados ao caixa 2.

Quem parece estar certo é o ministro Luiz Fux, que foi voto vencido no STF: “O MP é o dono da ação penal e é ele que vai decidir se vai fatiá-la (enviando-a à Justiça Federal ou Eleitoral). Se ele oferecer denúncia por crime eleitoral, o caso vai para a Justiça Eleitoral; se oferecer por crime federal, vai para a Justiça Federal”, opinou.

O que ocorre é disputa de poder, cujo final será sempre ruim para o país. A briga acabou levando o presidente do STF, Dias Toffoli, a propor discutível investigação de procuradores da Lava Jato tidos como responsáveis por ofensas recém-dirigidas à Corte e seus integrantes. Entre eles estão Deltan Dallagnol e Diogo Castor.

E o presidente Bolsonaro? Após as trágicas mortes provocadas pelos massacres em Suzano e na Nova Zelândia, quando se discute tornar rígidas as regras para se obter posse e porte de armas, em entrevista à imprensa, afirmou que enviará ao Congresso decreto propondo justamente o contrário. Disse, também, que, no Palácio da Alvorada, dorme com uma arma na cabeceira da cama…

Recorro, enfim, à escritora Ana Maria Machado: “Entre tantas falsas imagens que nos cercam nesta labiríntica sala de espelhos do Brasil atual, dá vontade de entregar os pontos e chorar, já que tanta gente parece bater palmas e preferir a solução de avestruz”.

Estamos brincando com o futuro do país.

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