Acílio Lara Resende

Há coisas mais importantes para se discutir no Brasil
Publicado em: Qui, 09/05/19 - 03h00

Pensei em preparar uma lista de polêmicas levantadas pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, nos últimos quatro meses. Mas a velocidade com que ele a abastece é um enorme desafio. Tudo logo já estaria velho. 

Pensei noutra curiosidade: relacionar o número de partidos a que já pertenceu. Bolsonaro está na vida pública há 30 anos. Salvo engano, já foi filiado a nove partidos: PDC, PP, PPR, PPB, PTB, PFL, PP, PSC e PSL. Os filhos esquentam os motores: Flávio já se filiou a três; Carlos, a quatro; Eduardo, a dois. Há dias, li que os quatro poderão deixar o PSL em breve.

Lembrei-me. A notícia de que os filhos do presidente deixariam o partido e já estariam conversando sobre a reedição da União Democrática Nacional (UDN)saiu publicada em “OEstado de S. Paulo”, além de outros jornais. A UDN, como se sabe, nasceu em 1945, com o claro propósito de fazer enérgica oposição ao ditador Getúlio Vargas. Seu lema seria o mesmo: “O preço da liberdade é a eterna vigilância”. Como se trata de sigla nova, embora com nome velho, a migração da família Bolsonaro de um partido para outro não implicaria perda de mandato.

O lema da UDN e os ventos libertários que sopravam em 1945 podem ter levado o presidente a dizer o seguinte, em sua conta no Twitter: “Em meu governo, a chama da democracia será mantida sem qualquer regulamentação da mídia, aí incluídas as sociais. Quem achar o contrário, recomendo um estágio na Coreia do Norte ou Cuba”.

Os bolsonaristas fanáticos dizem que as polêmicas do presidente são de caso pensado. Ao criá-las, estaria regulando a oposição ao seu governo. Essa leitura não condiz com a realidade. A disputa entre “olavistas” e militares da reserva que estão no governo, por mais que o presidente procure arrefecê-la, ao dizer “que não existe grupo de militares nem grupo de olavos, tudo é um time só”, é reforçada pelo que disse o general Villas Bôas, na última segunda-feira, sobre Olavo de Carvalho: “Passou do ponto. Aliás, já vem passando do ponto há muito tempo, agindo com total desrespeito aos militares e às Forças Armadas. E, quando digo respeito, é impressionante que ele, como um homem que se pretende culto, desconhece normas elementares de educação”.

A metralhadora giratória de Olavo de Carvalho já atingiu o núcleo principal de generais que trabalham no governo. O presidente disse que a melhor resposta é “ficar quieto”, mas, não obstante, condecora-o com o mais alto grau da Ordem de Rio Branco.

No mesmo dia da distribuição de honrarias no Itamaraty, o presidente lembrou aos presentes, referindo-se à peleja entre “olavetes” e militares, que “há coisas mais importantes para se discutir no Brasil”. É verdade! São urgentíssimas! Para que isso ocorra, que se entenda o que disse (ao país, mas, sobretudo, ao presidente) o general Villas Bôas. Desvencilhar-se de Olavo é providência imediata.

Antes que seja tarde! 

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