Cristovam Buarque

A disciplina é democrática
Publicado em: Sex, 01/02/19 - 03h00

A violência generalizada que desfaz a estrutura familiar, provocando desemprego e pobreza, também conduz à violência do tráfico, do assalto, das balas perdidas. Penetra na escola, e o professor vira vítima da violência sobre a escola. Mas há outra violência que é da própria escola contra os alunos, pela precariedade de instalações e equipamentos, que incentiva a reação violenta dos jovens.

A desadaptabilidade da escola aos tempos atuais faz com que o aluno não veja o professor como o condutor para uma vida melhor. A consciência dos alunos de que a escola não está sendo um instrumento de sua promoção social faz com que o professor não seja visto como construtor do seu futuro.

No Brasil, o profissional está diretamente ligado ao seu prestígio material identificado com o salário. Com baixa remuneração, o professor se diminui no imaginário da população e dos alunos; desprestigiado, sofre bullying e é candidato a vítima de violência moral e física.

A desconexão geracional é um fenômeno de quase todo profissional nos tempos de hoje, mas a situação é mais grave na escola porque o professor lida com crianças e adolescentes que estão mais sintonizados com os novos tempos e instrumentos do que os clientes já adultos de outros profissionais. Essa desconexão geral com estranhamento pode se transformar em violência.

A principal causa da violência é o mundo político que despreza a educação e o professor. Quando, às vezes, despertam para o problema da violência contra o professor, os dirigentes políticos decidem tratar o assunto como caso de polícia, de repressão.

Todas essas causas têm a ver com características da “mente brasileira”, que jamais colocou a educação como um valor central da sociedade, como o indicador maior de riqueza e de progresso, desprezando o elemento-chave da geração de saber: o professor.

A retomada da disciplina é um ponto de partida, embora não suficiente, para quebrar o círculo vicioso da violência. E no atual quadro de indisciplina, dificilmente os professores são capazes de romper com isso. É preciso assessoria técnica para entender as medidas necessárias, sem deixar de ser escola.

O uso de uniformes, a pontualidade do aluno e do professor, o respeito coletivo aos símbolos nacionais, a exigência do bom comportamento, com penalidade aos que desrespeitam o funcionamento escolar, são medidas disciplinadoras que certamente ajudarão a coibir a violência.

No entanto, transformar as escolas civis em escolas militares – tal como ocorre no Distrito Federal – não é o caminho. Manter diálogo com assessores do meio militar, subordinados aos professores, psicólogos e psicopedagogos, pode trazer vantagens.

Para isso, é preciso que os professores entendam que eles serão os grandes beneficiados imediatos com o novo clima de respeito que será criado. E que compreendam também que a indisciplina, além de violência, é um gesto antidemocrático, porque desrespeita as instituições e as pessoas.

(5) comentários

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Fora Comunas 11:11 PM Feb 06, 2019
“Ponha-se na Presidência qualquer medíocre, louco ou semianalfabeto, e vinte e quatro horas depois a horda de aduladores estará à sua volta, brandindo o elogio como arma, convencendo-o de que é um gênio político e um grande homem, e de que tudo o que faz está certo. Em pouco tempo transforma-se um ignorante em um sábio, um louco em um gênio equilibrado, um primário em um estadista. E um homem nessa posição, empunhando as rédeas de um poder praticamente sem limites, embriagado pela bajulação, transforma-se num monstro perigoso.” (General Olímpio Mourão Filho, em 1978, em seu famoso livro “A verdade de um revolucionário”). O LULA TÁ PRESO, BABACA! (Cid Gomes, 2018) Sic Transit Gloria Mundi ("toda glória do mundo é transitória”)!
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Fora Comunas 11:09 PM Feb 06, 2019
Hipócrita! Sepulcro caiado! O LULA TÁ PRESO, BABACA!
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Nestor Martins Amaral Júnior 3:09 PM Feb 01, 2019
Ter escolas militares como "benchmark", que de fato elas são não significa necessariamente transforma as civis em militares.
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mario 11:42 AM Feb 01, 2019
No quesito educação formal e até profissional, o Brasil vai bem, pelo que vemos na quantidade de diplomados com altos cargos em grandes empresas. Nosso problema é mais cultural. Uma cultura de respeito ao próximo, sem a ganância por mais dinheiro, como uma virtude a ser alcançada. Vejam o que aconteceu nas empresas Petrobrás e Vale, por exemplo...Quem discute se temos profissionais altamente qualificados, nessas empresas? No entanto, todos vimos e estamos pagando por essa visão meramente tecnicista da educação formal.
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João Teixeira Do Rosário 10:20 AM Feb 01, 2019
DA CORVARDIA DOS “BONS” SE PREVALECEM OS “MAUS.” O Brasil necessita de orações, mas com toda certeza, muito mais, de atitudes coerentes por parte dos que se dizem seus representantes, políticos e religiosos. Como vimos em Daniel 11: 32, o povo que conhece a Deus, torna-se forte e fará proezas. É desta fortaleza e consequentes proezas que precisamos por parte dos lideres políticos e religiosos. Onde a igreja católica? Onde os evangélicos? Divididos e encastelados em seus dogmas. Penso haver encontrado uma resposta: A doutrina de que Jesus morreu para nos salvar de um eventual inferno na outra vida, roubou-lhe o mérito de haver entregue sua vida para libertar o povo, não do inferno idealizado, mas do inferno real da escravidão que lhes era imposta por parte do poder civil e religioso de sua época. Chego a ver certo logica na afirmação : “a religião é o ópio do povo.” Não há como negar uma certa alienação mental impeditiva de perceber a realidade. INFELIZMENTE. Precisamos decompor a palavra oração em “ora e labora.” Fale e faça. Se agirmos sempre da mesma forma, tudo permanecerá, exatamente, como antes. Mais uma vez afirmo que não podemos contar com intermediários para resolver nossos problemas, “A união faz a força.” O povo necessita desvincular-se de quaisquer dependências e fazer valer sua força de coesão. Vamos rever a necessidade de partidos e de religião. Ambos podem dividir e enfraquecer. Enfraquecer é tudo o de que precisam os falsos lideres para facilitar a manipulação. No meio, está a virtude: ser ajudado sem ser manipulado. DESPERTAR É PRECISO
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