Cristovam Buarque

Armas e urnas
Publicado em: Sex, 18/01/19 - 03h00

Diante da violência generalizada praticada por bandidos armados, eleitores foram às urnas para eleger o candidato que defendia a facilitação da posse de armas. Com a ilusão de que arma guardada em casa impede o bandido, o eleitor teve razão no seu voto, e o presidente eleito tem razão em cumprir sua promessa. As urnas pediram armas.

Os eleitores sempre têm razão, mas nem sempre estão certos. A razão vem do clima de desconfiança e de desespero, mas estar certo depende dos resultados que serão obtidos: nada indica que o armamentismo vai reduzir a violência, e tudo indica que vai trazer mais consequências negativas. Precisamos de polícia armada para nos defender, não de nos armarmos para reagir. Em outubro, armas e urnas casaram, mas não darão bons frutos.

Um mínimo de lucidez permite imaginar os negativos resultados do armamentismo individual: autorizar posse de arma não combate a violência, expande-a, leva-a para dentro de casa, nas mãos de menores curiosos, de maridos violentos, de vizinhos nervosos. Num tempo em que não se confia na polícia, nas Forças Armadas nem em profissionais da segurança, o eleitor votou em quem oferecia o melhor caminho para se defender.

O eleitor iludido tem razão, mas comete um equívoco; o governante ilude e compromete a segurança, no lugar de enfrentá-la. A solução correta seria recuperar a confiança do eleitor nas forças de segurança, mas preferiu-se a solução simplista e demagógica de manter o desprezo à polícia e assumir o papel de defender pessoalmente a si e sua família.

Pior é que esse armamentismo dificilmente será revertido. Uma vez armados, brasileiros nunca mais serão desarmados. Os que têm dinheiro para comprar armas e balas vão adquirir o direito e, no Brasil, direito adquirido fica pétreo para os ricos. Não faltarão políticos demagogos e populistas para serem aplaudidos ao proporem juros baixos para os pobres comprarem armas e “bolsas-bala” para municiá-las.

Além disso, medidas simplistas como essa tendem a impedir debates sérios. Iludem, ofuscam e fogem de perguntar por que o país que antes instigava pela tolerância, agora intriga por substituir o diálogo pela intolerância; que aceitava e até se divertia com suas divergências, agora transforma as discordâncias em disputa, brigas, guerras.

Não se debate como foi possível manter a persistência da pobreza ao longo de décadas, sem renda suficiente, água, esgoto, cultura; como deixamos nossas cidades se transformarem em “monstrópoles”, no lugar de metrópoles; como deixamos continuar o desmatamento da Amazônia, a contaminação dos rios, a sujeira das ruas; sobretudo não nos perguntamos por que ficamos violentos, achando que o problema é a falta de armas, e não o excesso delas na sociedade desigual, descontente, desconfiada.

No lugar de entendermos o porquê da violência e como construir harmonia, estamos preferindo iludir o eleitor com a demagógica e grosseira falta de lucidez de que mais armas constroem a paz e reduzem as mortes.

(4) comentários

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Nestor Martins Amaral Júnior 7:04 PM Jan 30, 2019
O bandido tem certeza que o cidadão de bem está desarmado e não tem armas em casa. Portanto é presa fácil. Certamente grande parte da população não se armará. Mas, o bandido não terá certeza disso. Assim, antes de praticar o crime ele pensará duas vezes. Há, portanto, um efeito psicológico favorável ao cidadão de bem. Decálogo de Lênin (1913) - décimo mandamento: “catalogar os que possuam armas de fogo, para que sejam confiscadas no momento certo impossibilitando qualquer resistência à causa".
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Nestor Martins Amaral Júnior 7:00 PM Jan 30, 2019
Há um equívoco. O eleitor não foi às urnas na busca de armas de fogo e sim de armas que possam desbaratar a corrupção generalizada. O establishment tenta confundir o povo para denegrir e/ou menosprezar a imagem daquele que veio acabar com a sua farra. A corrupção é mais que uma arma de fogo é uma bomba atômica contra a esperança de um povo sofrido cujos recursos a ele devidos teimam em não chegar até ele. Será que marido violento deixará de ter sua arma só por ser ilegal? Quanta ingenuidade!
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João Teixeira Do Rosário 9:27 PM Jan 21, 2019
Desafio ao nobre senador a sair sozinho, segurança pessoal pelas ruas da cidade.Pimenta nos olhos alheios é colírio.
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João Teixeira Do Rosário 9:24 PM Jan 21, 2019
Opinião é opinião. A lei garante liberdade de expressão. Respeitosamente, ouso discordar da tese do renomado senador. o direito de defesa é consagrado pela lei civil e religiosa. O porte de arma não se dará sem um rigoroso critério, por certo maior do que o de escolha de um representante do povo. A arma de fogo não é o único instrumento para a pratica de violência. Há outras mais mordazes,como a corrupção generalizada em nosso pais. Para que tem segurança pessoal, arma é dispensável
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