Cristovam Buarque

Continuarei
Publicado em: Sex, 21/12/18 - 03h00

Foi uma honra ter servido ao Distrito Federal e ao Brasil, por dois mandatos, como senador da República. Creio ter sido motivo de orgulho com meu comportamento e minhas ações. Consegui atravessar todo o período da crise moral na política brasileira sem provocar qualquer constrangimento ético; sem mentir e sem usar demagogia; forma de corrupção que rouba a mente do eleitor e desorganiza o país.

Entre todos os 744 eleitos desde a Constituição de 1988, consegui ser o senador que formulou e aprovou o maior número de leis, sancionadas e em vigor; o segundo, entre todos os 1.544 eleitos desde 1946. Fazem parte desse conjunto de 21 leis a do Piso Salarial Nacional do Professor, a lei que assegura direito à vaga para toda criança desde os 4 anos e a que obriga os governos a oferecerem vaga até o final do ensino médio para o aluno que desejar.

Mesmo enfrentando pressões e agressões, defendi e votei sempre o que minha consciência indicava ser o melhor para o Brasil, não o melhor para minha carreira. Fiz centenas de discursos, milhares de artigos, mais de cem projetos de lei, além das 21 sancionadas. Fiquei reconhecido nacionalmente como o obstinado “senador da educação”; fui candidato a presidente da República com a bandeira “educação é progresso”.

Mas, apesar de reconhecido nacionalmente pelas realizações e posições como “senador realizador, combativo, coerente, honesto, corajoso”, cheguei ao final do segundo mandato com a frustração de não ter conseguido realizar ainda os sonhos que tinha ao entrar na luta política. Não consegui convencer os demais congressistas nem a população de que a educação de qualidade igual para todos é o caminho para fazer um país eficiente e justo, com alta renda e boa distribuição; também não consegui convencer que isso exige a substituição do atual sistema escolar municipal por um sistema federal. Tampouco que, para construir justiça social, é preciso caminhar sobre uma economia eficiente.

Apesar dessas frustrações, não desisti; disputei as eleições de 2018 para um novo mandato. Busquei a reeleição pelo reconhecimento da população aos resultados de meu esforço no passado. Mas o eleitor queria renovar seus representantes e escolher políticos com uma “nota só”: contra a violência, o crime e a corrupção. Apesar de meus discursos, projetos de lei e meu comportamento me colocarem entre os mais comprometidos com a ética e a segurança, sou identificado como senador de outra “nota só”: a educação.

Terminado o mandato com uma agenda mais aliviada e gratificante, continuarei no mesmo endereço de quase 40 anos atrás, com as mesmas atividades de professor e escritor, com os mesmos sonhos que me trouxeram para o Senado. Olho o futuro e me vejo continuando ainda na luta. Agradeço ao eleitor que me trouxe à trincheira parlamentar e ao eleitor que teve suas razões ao me deslocar para outras trincheiras.

(4) comentários

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Fora Comunas 11:15 PM Jan 02, 2019
Uma cavalgadura. "Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência!?"
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Fora Comunas 11:02 PM Jan 02, 2019
Continuará hipócrita. Continuará mentindo e se atribuindo importância que não tem (nenhuma). Outro f. d. p. que está aí há 50 anos mentindo e enchendo linguiça. Ô inutilidade! Silêncio, estrupício!
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mario 2:31 PM Dec 21, 2018
Parabéns, por seus ensinamentos e textos primorosos. Quando tive a oportunidade de vê-lo discursar, no Senado, fiquei impressionado com sua inteligência e eloquência. Pena que seja muito pra nós, com problemas tão básicos.
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Nestor Martins Amaral Júnior 9:39 AM Dec 21, 2018
Perfil elogiável sob alguns aspectos, mas não em todos. Tanto que não venceu a última eleição. Sua disposição em continuar é louvável e enriquecedora, mas há que pensar na quebra de paradigmas. Reflita sobre o que não deu certo. Uma coisa é certa, bons discursos não movem montanhas. Sem ações proativas não se chega a bom termo. O senhor pecou por omissões. O brio recomenda, no mínimo, sair de sena quando não se pode mudar o cenário. Se pode, por que não mudá-lo? Não mudou. O que teria faltado?
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