Flávio Saliba

Alta modernidade e sectarismo político-ideológico
Publicado em: Sex, 03/05/19 - 03h00

Levitsky e Ziblatt afirmam que “eleitores são ideologicamente divididos na Grã-Bretanha, na Alemanha e na Suécia, mas em nenhum desses países observamos o ódio sectário que hoje vemos nos Estados Unidos”. A este país eu acrescentaria o Brasil e muitos outros que sofrem os efeitos perversos da globalização. Aqui, o sectarismo chega ao ponto de responsabilizar a sociologia pelo chamado “marxismo cultural”. No entanto, a sociologia é a única ciência a dispor dos instrumentos teóricos que lhe permitiram identificar, ainda nos anos 70, os efeitos das novas tecnologias e das transformações no mercado de trabalho e na vida da humanidade. 

A primeira questão que a sociologia se coloca é a de saber por que os homens convivem em sociedade de forma relativamente pacífica quando tudo conspira para que ela se desagregue. A resposta encontra-se em sólidas teorias sociológicas sobre a coesão (ou solidariedade) social. Para Émile Durkheim, as sociedades primitivas ou tradicionais mantinham-se coesas em função das crenças e hábitos comuns que, uma vez infringidos, eram severamente punidos. Na atualidade isso se aplicaria, por exemplo, às sociedades tradicionais regidas pelo fundamentalismo religioso. 

Na era moderna, quando a religião e as tradições vão perdendo sua capacidade de exercer controle sobre o indivíduo, um novo elemento se impõe de forma gradativa como garantidor da coesão social: a divisão do trabalho promovida pelas relações de mercado. Paradoxalmente, é na sociedade de mercado que o homem se vê ao mesmo tempo livre e, mais do que nunca, dependente de seus semelhantes, dada a crescente especialização das funções. O trabalho torna-se, ao mesmo tempo, fonte de identidade individual e meio pelo qual os indivíduos interagem de forma regular e solidária.

A alta modernidade vem solapando as bases da convivência até então garantidas pelo mercado de concorrência quase perfeita. As inovações tecnológicas servem, sobretudo, para aumentar a produtividade via substituição do trabalhador por máquinas. A revolução digital leva esse processo ao extremo: desorganiza os mercados de trabalho, cada vez mais dependentes de um punhado de especialistas qualificados, suprimindo antigas profissões, gerando desemprego e, com isso, a própria fonte de identidade individual e coesão social.

Trabalho eventual, subemprego e desemprego em massa, associados a guerras e à pobreza, promovem intensos fluxos migratórios internacionais, fomentando a xenofobia e a intolerância, inclusive em relação aos avanços dos direitos civis. A ausência de sólidos vínculos com o mercado de trabalho talvez explique o retorno ao fundamentalismo religioso enquanto fonte de solidariedade entre vastas parcelas da sociedade contemporânea. Vivemos num mundo em que a solidariedade cede espaço ao sectarismo, cujo exemplo mais singelo é dado pela emergência de identidades simbólicas entre as violentas torcidas organizadas de futebol. 

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