Flávio Saliba

Civilidade e assédio sexual
Publicado em: Sex, 05/04/19 - 03h00

Joe Bidden, o vice-presidente de Obama, vem sendo acusado de assédio sexual por duas mulheres. Uma afirma ter ele encostado seu nariz no dela, e a outra, ter sido tocada nos ombros. Nos Estados Unidos, assédio é qualquer tipo de ato tido como “inapropriado”.

Como bem observou uma jornalista, no Brasil isso não teria maiores consequências, já que nos países tropicais somos mais relaxados e afetuosos. Aqui, temos hábitos espontâneos que em outras partes do mundo seriam considerados obscenos ou desrespeitosos. São traços culturais, dizem os antropólogos, como se cultura fosse algo atávico, irremovível.

Esquecem-se de que, com o tempo, certos hábitos desaparecem ou se modificam de acordo com o grau de desenvolvimento econômico e social de uma nação. Como venho insistindo aqui, tais diferenças de comportamento são fruto de um longo processo civilizador pautado pela crescente substituição do instinto pela razão que corrobora, de certa forma, a afirmação de Foucault de que civilização é repressão.

Na verdade, trata-se de um processo de gradativa substituição do controle externo pelo autocontrole forjado pela prosperidade, pela generalização das relações de mercado e, em última instância, pela plena instauração dos direitos de cidadania. Esta última, por sua vez, promove a confiança entre os cidadãos, a clara distinção entre o público e o privado e o reconhecimento dos direitos e deveres individuais que resultam, inclusive, na manutenção de maior ou menor distanciamento físico entre os indivíduos. São fenômenos observáveis, sobretudo, nas sociedades ocidentais avançadas, onde o toque de mão em pessoa desconhecida é altamente reprovável. Isso dá margem a tomar como assédio atitudes como aquelas atribuídas ao político norte-americano, não raro com a intenção de destruir carreiras e, eventualmente, receber indenizações por perdas e danos morais.

Não é preciso ir muito longe. Brasileiros em viagem à Argentina costumam afirmar que os portenhos são arrogantes. Tal impressão decorre do fato de que, lá, os transeuntes não se olham nos olhos. Tenho por mim que não se trata de arrogância, e sim de respeito à privacidade alheia, que não deve ser invadida sequer pelo olhar. O mesmo ocorre em quase todos os países com elevados níveis educacionais.

Tais formas de comportamento variam imensamente entre classes sociais, entre países e entre regiões de um mesmo país. Comparem os moradores de uma metrópole com os de uma pequena cidade ou área rural. Naquela, o indivíduo não passa de um anônimo; nestas, ele é um anônimo a ser “escaninhado” por insistentes olhares curiosos.

Os descompassos globais nos níveis de prosperidade, na instauração das relações de mercado e nos hábitos cotidianos encontram-se na base do que Samuel P. Huntington classificou como choque de civilizações. 

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