Laura Medioli

Cecília
Publicado em: Dom, 14/04/19 - 04h30

Prima torta de minha mãe, Cecília surgiu não sei bem de onde. O fato é que apareceu uma vez em minha casa e de lá nunca mais saiu. Não havia um fim de semana sequer que não vinha com suas roupas, dentaduras e camisolas. Dormir em nossa casa, uma espécie de chácara aberta a todos, era seu programa favorito.

Tinha um astral ótimo! Adorava pular Carnaval em Ouro Preto e seduzir viúvos solitários. Seu maior sonho era se casar. Tudo bem, esse é o sonho de quase toda mulher, e, como amor não tem idade, Cecília, com seus 70 anos, jamais perdera as esperanças.

Com o passar do tempo, foi tomando “ares de dona da casa”, para o desespero da meninada. Era a guardiã da despensa. Ai de quem se atrevesse a abrir uma lata de biscoitos ou se deliciar com uma ambrosia. Mantinha a chave escondida para que, quando estivesse sozinha, pudesse fazer seu ataque gastronômico.

Dormia em meu quarto, se apossando da cama de minhas amigas. Elas, se quisessem, que dormissem no chão. Aliás, na cama ou no chão, o que menos fazíamos era dormir. Pudera!

Como fechar os olhos com aquele bombardeio de roncos da Cecília. Um inferno! E, como se não bastasse, tínhamos que permanecer caladas, sem proferir uma palavra, porque, do contrário, lá vinha xingo. Cansei de reclamar com minha mãe, que, sendo a “mãe da paciência”, dizia para termos calma e compreensão.

Infelizmente, adolescentes são meio rebeldes, e o que menos tivemos foram calma e compreensão. Havia noites em que eu e minhas amigas ficávamos mastigando cenoura crua, fazendo um barulho dos diabos, só para irritá-la. E conseguíamos! Cecília ficava louca. Levantava xingando e, às vezes, até chorando. Dizia que iria falar com minha mãe que aquilo era uma total falta de respeito. Essa guerrinha fria entre a gente durou um bocado de tempo, até ela chegar à conclusão de que dormir em meio a um bando de adolescentes, definitivamente, não daria certo. Pegou suas trouxas e mudou de quarto. Vitória!

Ao mesmo tempo em que era extremamente alegre e contava casos engraçados e impróprios para menores, era extremamente chata. Implicava com tudo. Com nossas conversas, nossas fomes e nossas sedes. Refrigerante? Goiabada com queijo? Imagina! A geladeira de minha casa era dela. Só dela! Deus, como comia! Seus quadris exuberantes tinham sua razão de ser. Em pouco tempo, ganhou o apelido de “Zubáinda”, que, mesmo sem ter significado algum, traduzia bem o seu tipo.

Lá vem a Zubáinda! – diziam os meninos quando, de manhã cedo, viam-na despontar com suas sacolas na estradinha de nossa casa.
Seu tom de voz era um espanto. Com muitos decibéis a mais, de longe se fazia ouvir. Queria saber de tudo e, sem ser convidada, adorava invadir conversas alheias.

Com o passar dos anos, quando deixamos de ser meninas-moças para sermos apenas moças, as coisas mudaram. Aí, sim, chegaram a calma e a compreensão que tanto dizia minha mãe.

Cecília já não escondia mais a chave da despensa, já não xingava como antigamente, como também já não sorria tanto. A idade foi batendo e deixando suas marcas. De repente, parou de contar suas proezas com os viúvos de Ouro Preto. Queria mais era um cantinho para descansar e ter tranquilidade. Imagino que, para quem, durante mais de 20 anos, tenha lecionado num grupo escolar, sossego no fim da vida seja a meta mais desejada. E era só isso o que ela queria. E foi isso que encontrou em nossa casa.

Cecília morreu doente, sob os cuidados de minha mãe e da alma caridosa de nossa sempre fiel escudeira, Preta. Deixou saudades.

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