Paulo Navarro

Casa de ferreiro
Publicado em: Dom, 07/04/19 - 03h00

Casa de ferreiro
Assim, como “filhos de chefs provavelmente não comem porcaria em fast- foods”, gurus digitais criam os filhos sem telas. Sim, no templo da tecnologia digital, o Vale do Silício, nos Estados Unidos, escolas aboliram, proibiram mesmo, tablets, computadores e celulares. É professora com giz colorido e quadro-negro emoldurado em madeira rústica, como nos nossos velhos tempos.

Espeto de pau
Crianças entre 9 e 10 anos fazem contas a lápis. A sala de aula é revestida de papéis. Mensagens, horários, desenhos, trabalhos dos alunos: nenhum saiu de impressora. Nada, nem mesmo os livros didáticos, que as próprias crianças elaboram à mão, foi feito por computador.

Casa de pau
Escolas de todo o mundo se esforçam para introduzir computadores, tablets, quadros interativos e outras pérolas tecnológicas. Mas na Waldorf of Peninsula, escola particular onde são educados os filhos de administradores de Apple, Google etc., telas só entram no ensino médio.

Espeto de ferro
“Não acreditamos na ideia de que você coloca algo em uma máquina e sai um resultado sem compreender o que acontece lá dentro. Se você faz um círculo perfeito com um computador, deixa de ter o ser humano tentando alcançar essa perfeição. O que desencadeia o aprendizado é a emoção e seres humanos, não as máquinas. Criatividade é algo essencialmente humano”, diz Pierre Laurent, pai de três filhos, engenheiro de computação, ex-Microsoft e Intel.

Espeto experimental
Continua Pierre Laurent sobre essas novas velhas escolas: “Nas crianças, as telas limitam habilidades motoras, sua tendência a se expandir, sua capacidade de concentração. Não há muitas certezas. Teremos as respostas daqui a 15 anos, quando essas crianças forem adultas. Mas queremos correr o risco?”. Livros!

Espeto anunciado
Um consenso entre as elites do Vale do Silício: Os adultos que melhor entendem a tecnologia querem que seus filhos se afastem dela. Os benefícios das telas na educação infantil são limitados, argumentam, enquanto o risco de dependência é alto. Nosso comentário: se telas e telefones celulares transformam até adultos em dependentes mentais, imaginem o que não fazem com a cabeça fértil e virgem de uma criança.

País de contrates
Do gerente de loja de eletrodomésticos à coluna, num shopping de Belo Horizonte, depois de, recentemente, viajar por algumas regiões do Brasil: “Enquanto no Centro-Oeste e no Nordeste o varejo ‘vai muito bem, obrigado’, com o aquecimento da agricultura e de incentivos fiscais, no Centro e no Sul, a economia se mantém estável, ou seja, sofrível. Em Minas e no Rio de Janeiro, o caos é muito visível”.

País de desastres
Em Minas e Rio, com crises políticas e econômicas, atraso no pagamento de funcionários públicos e o ICMS mais caro do Brasil, o varejo apresenta índices péssimos. Nesse contexto, segundo ele, lojas do Nordeste crescem duas vezes mais do que qualquer Estado. Quem diria, não é mesmo?

País de abismos
Resumindo a ópera e a ironia do destino, é uma inversão de tradição. Dependendo do Estado, as pessoas estão vendo a cor do dinheiro e tendo uma qualidade de vida melhor. Ele constatou isso depois de rodar sete Estados. Está há cinco meses em BH e impressionado com a estagnação.

Seguro velho
Relatos de motoristas de Uber sobre o critério de aceitar passageiros em determinadas horas e locais são impressionantes. Cautela pouca é bobagem ante a quantidade de assaltos. Daí, há que se apelar, sem preconceito, para o sexto sentido ou intuição. Muitos não aceitam passageiros “suspeitos, esquisitões”. 

Lança-perfume
Ainda sobre o temor dos motoristas de Uber, um complemento sobre certos passageiros e as suspeitas que geram. Passageiros que já têm perfis manjados e catalogados em rede de motoristas. Vale ressaltar que motoristas de taxi, há muito, não pegam certos passageiros em certos horários e/ou regiões. Aqui entre nós, parar o carro de madrugada, num lugar isolado, numa região notoriamente perigosa, não é para os fracos. E é, no mínimo, suspeito.

Nesta semana, tratamos aqui, superficialmente, sobre assunto deveras importante. Para a revista norte-americana, “Departures”, Tiradentes é a cidade mais bonita do Brasil. “Charmosas casinhas cercadas por montanhas e uma igreja verdadeiramente magnífica”. A revista – especializada em luxo, turismo e estilo de vida – apresenta dados históricos da região e destaca a arquitetura barroca de Tiradentes. Lembrando que esse sucesso e essa fama são devidos à preservação do patrimônio.

E por falar em patrimônio preservado, nota mil para os bons governadores e prefeitos e zero para autoridades imbecis e especuladoras, corrompidas e corruptoras que destróem. Gente burra que acaba com o futuro, demolindo o passado. O que fazer, como reverter esta situação? Primeiro, parar o massacre, a destruição. Depois, investir em restauração. Mas, se até um país rico como a França tem dificuldades em investir na recuperação do patrimônio, imaginem o Brasil. Acontece que a França tem infinitamente mais patrimônio a recuperar, e cada recuperação demanda muito mais dinheiro que as necessárias ao Brasil.

A França também tem mais gente culta, inteligente, educada e preocupada com o patrimônio. A França tem muito mais trabalho voluntário. Na França, museus não pegam fogo como aqui. O patrimônio lá sofre com o tempo e perdeu muita coisa com guerras e revoltas. No Brasil, o pouco dinheiro que temos é desviado. O Iphan “é de plástico”, e nossos governantes rimam com ignorantes. Resumindo: mais amor pelo passado, pela história. Mais educação e cultura, menos burrice e corrupção.
 

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