Paulo Paiva

A ambição apequena o homem
Publicado em: Sex, 17/05/19 - 03h00

O presidente Jair Bolsonaro formou sua equipe sem preocupação com as competências políticas de seus auxiliares diretos.

Dois ministros foram apresentados como superministros pela relevância de suas áreas e pelo simbolismo que têm. Colocar a economia no rumo e combater a corrupção e o crime organizado foram as missões dadas a Paulo Guedes e Sergio Moro, respectivamente.

O ministro Sergio Moro tornou-se um caso exemplar. Por sua atividade até então como juiz responsável pelo julgamento dos processos da Lava Jato, construiu uma imagem de justiceiro da política, implacável contra os transgressores da lei e da moral. Ao aceitar o convite do presidente, o juiz Moro não avaliou seguramente as consequências de sua decisão. À época, a justificou dizendo ter o presidente aceitado suas propostas para a pasta e que iria para o governo para exercer funções exclusivamente técnicas, com autonomia e independência, olvidando que o cargo que ocuparia, por sua própria natureza, era político. Autoengano?

Moro abandonava não apenas uma profícua carreira na magistratura, na qual tinha estabilidade e independência e havia, sobretudo, angariado elevado prestígio, para assumir um cargo que o subordinaria às contingências do governo. Filiou-se ao projeto político do presidente Bolsonaro, com todas as suas consequências, para o bem ou para o mal.

Comentei aqui, neste espaço, em 7.11.2018, que a falta de transparência em relação à cronologia dos contatos de Moro com a equipe do ainda candidato Bolsonaro, conforme assinalara Elio Gaspari, deixou uma fissura aberta na sua integridade.

Depois de somar muitos reveses nos primeiros meses de exercício, o ministro Moro vê-se diante de embaraçosa situação quando o presidente Bolsonaro afirma publicamente que mantém o compromisso assumido de indicá-lo à próxima cadeira disponível no STF. Novamente, sua resposta, também pública, não corresponde à grandeza de seu cargo, ao dizer, visivelmente constrangido, que não há vaga aberta no STF e, se convidado no futuro, irá avaliar a conveniência em aceitá-lo. O caráter evasivo da resposta favorece a dúvida.

A ambição apequena os homens. Na política, o simbolismo significa mais do que as palavras. Sergio Moro não avaliou corretamente os impactos de sua decisão para sua história e sua imagem pública. Apequenou-se. Não foi o presidente que aceitou o seu projeto. Ao contrário, a versão que ficará para a história é a de que o presidente Bolsonaro comprou a grife Sergio Moro, pagando-lhe com uma cadeira no STF, empenhando o fluxo futuro de recursos públicos. O que isso difere da velha política? O que importa nos casos de corrupção, já nos ensinara o juiz Moro, não é o destino, mas a origem da contrapartida.

Seu projeto escafedeu-se. O ministro transformou-se desde então em ministro interino. Sua vaga já está posta em disputa.

O superministro rebaixou-se a subministro.

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Nestor Martins Amaral Júnior 9:51 AM May 17, 2019
Dizem que o homem é um animal político. Moro está entre os que praticam a boa política ao contrário da maioria dos nossos políticos. Assim, não há como fechar. De que lado estaria o erro? Moro teria que se apequenar? Sabemos também que criminoso (maioria do Congresso) não aprova jamais lei anticrime. O que se há de fazer? Só vejo um caminho: Ato Institucional já. Temos que consertar o Brasil. Essa é a prioridade e a ansiedade dos milhões de desempregados.
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