Paulo Paiva

Cruel é o tempo, não volta jamais
Publicado em: Sex, 12/04/19 - 03h00

Governar um país como o Brasil, com suas diversidades, suas carências e seus conflitos, é muito difícil. Na agenda de problemas a serem resolvidos estão: economia emperrada; mais de 24 milhões de pessoas à procura de um emprego digno; União e Estados gastando mais do que arrecadam, acumulando dívidas impagáveis no curto prazo; políticos buscam interesses pessoais, sem qualquer compromisso público; tensões político-institucionais; políticas públicas ineficazes; baixa qualidade da educação fundamental; insuficiência no atendimento à saúde; alto nível de violência e criminalidade; déficit na oferta de infraestrutura; e investidores inseguros e sem confiança no país. As soluções são complexas, exigindo competência dos administradores, cooperação da sociedade e tempo, mas a população espera soluções imediatas.

As consequências da dissonância entre demandas e soluções estão estampadas na avaliação do governo feita pela recente pesquisa do instituto Datafolha. O presidente Bolsonaro recebeu a pior avaliação no final do primeiro trimestre entre todos os eleitos para o primeiro mandato desde a redemocratização. Dos entrevistados que declararam ter votado em Bolsonaro para presidente, pouco mais da metade (54%) avalia seu governo como ótimo ou bom, após três meses de gestão.

Para entender o comportamento atual dos eleitores nas últimas eleições, é preciso analisar essa pesquisa à luz da composição dos objetivos tão díspares dos que votaram no presidente. Por que elegeram Bolsonaro, afinal?

Uma parte grande de seus eleitores votou contra o PT, mesmo o partido já estando fora do poder. O PT encarnava a grave crise econômica, a corrupção desvairada e o seu próprio sectarismo. “Fora, PT” foi um fator decisivo do voto em Bolsonaro. Esse objetivo foi atingido.

Outra parte foi empolgada pelo populismo, tipo Trump, votando contra as práticas da velha política e contra a mídia convencional e a favor da promessa de mudar tudo que aí está, turbinada pelos evangélicos, crentes em valores conservadores, reacionários, e na condenação das diversidades. “Deus acima de tudo”, “Escola sem partido”, “homens vestem azul, mulheres, rosa”, “fim da ideologia de gênero”, “bandido bom é bandido morto” são alguns dos mantras que mobilizaram esses eleitores.

Ninguém votou no plano de governo do candidato Bolsonaro, até porque não havia. Sua ausência nos debates, a forma inquisitória das entrevistas das redes de televisão e o clima beligerante da campanha eleitoral não deixaram espaço para o candidato apresentar suas soluções para os problemas brasileiros.

Agora, cobram resultados rápidos, e o tempo está ficando curto para que o presidente Bolsonaro abandone questiúnculas inúteis, que interessam apenas a alguns de seus auxiliares, aos seus filhos e amigos, e foque seu governo na essência dos reais problemas brasileiros.

Cem dias já se passaram. O passado está feito. O que virá depois?

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