Paulo Paiva

Cuidado com os mercadores de ilusões
Publicado em: Sex, 10/05/19 - 03h00

Ninguém se iluda, a transição na economia e na política é irreversível. Como no belo verso consagrado na voz de Lulu Santos, “nada do que foi será/de novo do jeito que já foi um dia”.

Tudo passa. Contudo, não se sabe o que virá depois. Sabe-se que tudo será diferente. As novas tecnologias estão transformando dramaticamente os processos de produção e de comercialização. Novos produtos e serviços substituem os que, em desuso, são abandonados pelo caminho. Os ciclos de mudanças estão cada vez mais curtos.

Nas comunicações, elas são espetaculares. Fatos e fake news, indistintamente, estão em tempo real bombardeando as pessoas. Seus impactos já alteraram as práticas políticas, atropelando partidos e fazendo a ligação direta entre políticos e seus seguidores. Decisões de governo são comunicadas, primeiro, pelo Twitter.

Essas mudanças estão provocando senso de urgência e estado de ansiedade na população que espera por soluções rápidas para suas demandas. Por seu lado, governantes respondem com promessas simples aos problemas complexos.

Um bom exemplo é o caso da reforma da Previdência. Medida crucial para permitir ajuste nas contas do governo, cujo equilíbrio é fundamental para a redução da taxa de juros e para a estabilidade macroeconômica, condições necessárias, mas não suficientes, para o crescimento da economia. Essa reforma é vendida como a solução de todos os males; como, se aprovada, a economia voltasse imediatamente a crescer e gerar empregos.

A recuperação da economia e a geração de empregos requerem muito mais do que isso e não darão respostas no tempo que o governo promete e a população espera.

A recessão, que está ficando para trás, é somente um pedaço do problema. De 1980 a 2017, a renda per capita cresceu apenas 0,7% ao ano. A produtividade, fundamental para o crescimento, está estagnada nas últimas décadas.

Atualmente, de cada cem pessoas na força de trabalho, 25 estão subutilizadas, quer por desemprego aberto, quer por subemprego; vale dizer, 28,3 milhões de trabalhadores não estão contribuindo para a geração de bens e serviços. Esse é o nível mais alto de subutilização da mão de obra desde 2012. O equivalente aproximadamente à população da Venezuela ou do Peru está à margem da economia. Esse é o tamanho do drama brasileiro.

Em 2010, ano em que o país cresceu 7,5%, ocorreu o pico de geração de empregos formais (2,540 milhões). No ritmo de crescimento daquela data, seriam necessários 11 anos para absorver os 25% da força de trabalho subutilizada ou cinco anos para absorver os 13,4 milhões de desempregados. No ritmo atual (1%), seriam precisos 39 anos para empregar somente os atuais desempregados. Quantos sobreviveriam até o fim?

Mercadores, não iludam a população. Reformas da Previdência ou trabalhista por si sós não geram empregos. É o crescimento que os cria. Para crescer, precisa-se de muito mais do que vãs promessas. Sem crescer não há salvação.

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