Paulo Paiva

Reflexões sobre a Paixão de Cristo
Publicado em: Sex, 19/04/19 - 03h00

Nesta Sexta-feira Santa, o cristianismo celebra a Paixão de Cristo. Dia para reflexões sobre suas mensagens de libertação e de amor ao próximo.

Porque pregou justiça para os excluídos e esperança para os necessitados na vida eterna, Cristo foi crucificado aqui na terra. Sua mensagem de justiça e esperança para todos é fonte de inspiração para aqueles que acreditam em libertação e igualdade também na terra.

A nação com o maior número de católicos no mundo, segundo o Anuário Pontifício de 2017 da Santa Sé, é um dos países mais injustos e desiguais do planeta. Que triste paradoxo.

Com a primeira esquadra da coroa portuguesa que aportou ao litoral da Terra Brasilis, chegaram o cristianismo e a desigualdade. Como registrou Raymundo Faoro no clássico “Donos do Poder”, os portugueses iniciaram a colonização com a constituição do Estado, que foi o responsável pela instituição do patrimonialismo, que gerou as castas de servidores públicos, e pelo extermínio da população nativa.

Os professores Daron Acemoglu e James Robinson, no livro “Por que as Nações Fracassam”, demonstram que nas áreas onde os colonizadores optaram pela criação de instituições extrativistas, ao invés de inclusivas, deu-se origem à desigualdade e à injustiça, como ocorreu no Brasil.

No Estado Novo formou-se o corporativismo, ampliado e consolidado na Carta de 1988.

Ao longo da história, os sócios do poder, na expressão do ministro Luís Roberto Barroso, se apropriaram dos recursos públicos, quer em empregos estáveis bem-remunerados com toda sorte de privilégios, quer por meio de subsídios, créditos favorecidos e, sobretudo, relações promíscuas entre interesses privados, econômicos e políticos e agentes públicos corruptos. Estavam definitivamente instaladas as instituições extrativistas e consagrado o desamor ao próximo.

Para a exploração das atividades econômicas, importaram-se levas de africanos em condições sub-humanas de escravidão, cujos descendentes sofrem até hoje, discriminados e excluídos na sociedade.

Desde sempre, excluídas estão as mulheres, que na cultura cristã retrógrada deveriam ser submissas.

Ademais, os nordestinos, sem propriedade e sem educação formal, ficaram expostos à aridez do clima e à violência da exploração do seu trabalho. Expulsos das áreas rurais, foram atraídos pelas chaminés das fábricas nascentes nos centros urbanos do Sudeste.

Na consciência desses excluídos misturaram-se os sonhos do paraíso na vida eterna oferecido pela fé cristã e de melhores dias prometidos pelos donos do poder.

Graciliano Ramos, em “Vidas Secas”, descreveu a saga de uma dessas famílias nordestinas terminada no delírio do sonho de ter encontrado “Uma cidade grande cheia de pessoas fortes. Os meninos nas escolas aprendendo coisas difíceis e necessárias”. Sua cadela, Baleia, ao morrer, teve o delírio de ter chegado ao paraíso celeste, “cheio de preás, gordos, enormes”.

Diante de tamanha iniquidade, cresce o sofrimento de Cristo.

Comentários

Deixe seu comentário
* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso
LEIA MAIS
Leia mais