Paulo R. Haddad

Assimetria no retrocesso econômico
Publicado em: Seg, 29/04/19 - 03h00

No início dos anos 60, o governo dos Estados Unidos se preocupava com a influência da revolução cubana sobre países e regiões da América Latina. A preocupação maior se concentrava em áreas do Nordeste brasileiro, onde se estruturavam as ligas camponesas de Francisco Julião, e em áreas rurais da Bolívia, onde atuava a liderança de Che Guevara.

Diante disso, o governo norte-americano decidiu organizar e implementar um programa de cooperação técnica e financeira com países da América Latina, denominado Aliança para o Progresso. O raciocínio oficial era o seguinte: depois da Segunda Grande Guerra, a Europa estava destruída, sob o risco da expansão soviética, e os EUA haviam conseguido reerguer os países da Europa Ocidental através do Plano Marshall, que contribuiu decisivamente para reestruturar a economia desses países ao longo de uma década de ajuda financeira e técnica. Por que, então, não fazer um Plano Marshall para a América Latina e erradicar a pobreza e a miséria regional dificultando “a penetração das ideias socialistas”?

Celso Furtado analisou a proposta norte-americana e chamou a atenção para a diferença entre países subdesenvolvidos e países desenvolvidos que, por alguma razão, haviam entrado em processo de involução ou de retrocesso econômico. Mesmo que os indicadores econômicos e sociais desses países apresentassem alguma semelhança ou isomorfia estrutural, a sua realidade cultural e o seu contexto histórico eram profundamente diferenciados.

As diferenças mais significativas poderiam ocorrer quanto à disponibilidade de capitais intangíveis que, à época, não eram dimensionados ou percebidos pelos organismos oficiais de estatísticas. Esses capitais incluem o capital humano, o capital institucional, o capital cultural, o capital cívico, o capital intelectual.

Assim, Celso Furtado mostrava que, no caso da Europa, o que fora destruído durante a Segunda Grande Guerra havia sido o capital físico dos países e de suas regiões (fábricas, cidades, infraestruturas), mas não o seu capital social. Os fluxos de ajuda financeira do Plano Marshall, ao irrigar com moeda forte as economias europeias, encontraram populações com grupos sociais e instituições que, uma vez revitalizadas, afloraram seu espírito empreendedor, seu nível de informação e conhecimento, sua capacidade de organização e de planejamento, suas práticas democráticas de respeito aos assuntos e bens públicos, suas instituições universitárias etc. Imaginem o que poderia ocorrer com os recursos financeiros aportados pelos EUA em regiões da América Latina, onde eram comuns as práticas de corrupção administrativa, a falta de espírito associativista, a incapacidade de mobilização endógena de recursos latentes para promoção do desenvolvimento sustentável.

Coube a ele destacar a assimetria da involução econômica, lembrando que o retrocesso não traduz um movimento simétrico ao desenvolvimento e que, se não levamos em conta essa assimetria, dificilmente entenderemos determinados processos históricos na formação da economia moderna ou o fracasso das políticas públicas para o desenvolvimento de regiões economicamente deprimidas. Uma reflexão pertinente para diversas áreas de Minas Gerais que entraram em decadência econômica a partir do século XX.

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Nestor Martins Amaral Júnior 7:46 PM Apr 29, 2019
A revolução cubana tentou expandir-se na América Latina. Tanto que Guevara morreu na Bolívia. Mas, felizmente a ditadura do proletariado foi reprimida pelos militares dos respectivos países. No Brasil não foi diferente. Só que a história, contada que foi pelos perdedores, omite essa realidade transformando vilões em heróis e heróis em bandidos. Na cara dura eles dizem que lutaram pela democracia. Assumiram o poder no pós-militar para pilhar o país e leva-lo à banca rota. Alguns estão na cadeia.
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