Paulo R. Haddad

Redundâncias protetoras
Publicado em: Seg, 13/05/19 - 03h00

O Brasil precisa voltar a crescer. A perspectiva de crescimento da economia neste primeiro semestre não é nada favorável. A tendência é de um crescimento pífio, com elevadas taxas de desempregados, subempregados e desalentados e, também, de uma renda média familiar estagnada ou com ligeiro declínio. Será possível reverter esse processo de empobrecimento e de expectativas tão desfavoráveis?

A proposta do governo federal para uma questão tão complexa é simples – e insuficiente: se a reforma da Previdência for aprovada, deverá ocorrer uma reversão de expectativas entre os que consomem, os que produzem e os que investem; daí a demanda agregada deverá se expandir de forma não inflacionária numa economia com elevados índices de capacidade produtiva ociosa; e um ambiente de negócios menos nebuloso e mais previsível deverá favorecer a retomada do crescimento econômico.

Os economistas tendem, frequentemente, a serem reféns do Princípio de Pollyanna, que consiste em extrair algo positivo mesmo das coisas mais desagradáveis ou desfavoráveis, assumindo atitudes ingênuas diante de situações dramáticas, sofridas ou até mesmo catastróficas. Quando têm de elaborar e implementar uma política econômica, quase sempre se deixam guiar pelos princípios da eficiência e não da confiabilidade, o que lhes induz a falar com otimismo e platitude sobre os resultados esperados. Esquecem-se da pergunta-chave para quem não tem conseguido superar a crise desde 2014: e se...?

Esse cândido otimismo os leva, quase sempre, a despir a política econômica de redundâncias protetoras, de salvaguardas corretivas dos rumos adotados inicialmente diante de eventuais equívocos das suas predições condicionais. Essas redundâncias protetoras significam que, se a política econômica for construída a partir de modelos abstratos, sem incorporar componentes institucionais e psicossociais da realidade histórica sobre a qual intervém, é grande a chance do seu fracasso contingente.

São necessárias indicações de caminhos alternativos, complementares e, eventualmente, redundantes. Por isso, é sempre recomendável que, na concepção de uma política econômica, se substituam as normas de eficiência por normas de confiabilidade, visando a manter o sistema em adequado funcionamento em circunstâncias de rotina, bem como em circunstâncias hostis e inesperadas.

As normas de confiabilidade se orientam, prudentemente, mais no sentido de evitar o fracasso do que para garantir um retumbante e imaginário sucesso, tornando as políticas econômicas mais resistentes a choques exógenos, a efeitos inesperados e a falhas comuns nas predições condicionais.

No caso específico da atual estratégia da política econômica, é indispensável que se complemente a frágil hipótese de um país das maravilhas pós-reforma da Previdência (reforma absolutamente necessária, mas nada além do que ela pode dar), com ações programáticas e pragmáticas multifacetadas nos campos da política monetária, das poderosas cadeias produtivas setoriais, da carga tributária, etc.

É bom lembrar que o tempo da política é mais acelerado e menos tolerante do que o tempo da economia.

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