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Opinião

Essa rua tão augusta

Publicado em: Seg, 24/01/22 - 03h00

Nos últimos meses eu estava em São Paulo para um trampo, sinais dos tempos. Importante dizer que não foi um job, por favor (risos). Muita correria, tentando não entrar no modo 011. Tinha tomado a primeira da Pfizer, já com esperança de chegar àquela metrópole e descontar todos os meses que fiquei em casa trancado naquele medo. Vi meus amigos intocados, esperando a primeira ou segunda dose. Marquei de encontrar os que animavam. “A gente toma um gole de cerveja, coloca a máscara, e assim vai”.

Demorou pra conseguir um dia de boa pra ver a Cristina Amaral, pessoa e montadora que admiro tanto e que eu queria muito encontrar pra trocar ideia. Depois de eu ter que desmarcar mais uma vez pela falta de tempo, ela soltou: “É, André. São Paulo já tá te engolindo, né?” Concordei, rindo por dentro, mas de desespero.

Depois de semanas, finalmente conseguimos almoçar e tomar uma cerveja no BH Lanches, da Augusta. Acabou que uma amiga minha, Vivi Pistache, roteirista e pesquisadora, foi também, e logo depois surgiu, surpreendentemente, o Joel Zito Araújo, diretor e roteirista que respeito muito, que estava trabalhando nas redondezas e se sentou com a gente.

Na conversa entre nós quatro, a Vivi falou de um longa nacional que tava estreando naquela semana. Disse que o filme tinha problemas, mas achava que era pelo fato de ser a primeira obra do cara. Foi então que a Cristina mandou a braba e disse uma coisa que me fez pensar pra caramba: “A direção de um filme não tem muito a ver com a experiência de quem dirige, e sim com a forma como pessoa olha para o mundo naquele momento”. Saí dali de barriga cheia e pensando como eu estava enxergando o mundo naquele momento. Não sabia a resposta. Mas queria muito ter um filme agora no gatilho pra fazer essa reflexão na prática. Matutar nisso me traz pra uma realidade cruel de lembrar que não filmo, digamos, algo autoral, desde 2017, quando a gente fez o “Temporada”. Tempos muito difíceis e um governo de m... no caminho.

“Fazer cinema é desenvolver uma linguagem interna”. O Tonacci falava isso, o que me trouxe várias viagens sobre a feitura e autoralidade dos filmes, algo que eu levo pra vida. Isso me faz lembrar que em algum ano de Tiradentes vi meus pais andando naquelas ruas de pedra de bom papo com a Cristina e o próprio Tonacci. “Vida loka”.

Fui da ponte pra lá

Tava hospedado no centro do hipsterismo paulista, que é a Vila Madalena. Um dia fui lá no Lincoln. “Vila Fundão, Capão. Simples assim”. Quando ouço falar de Capão Redondo já canto internamente esse verso do Cores e Valores, mas na real o Lincoln Péricles, realizador que admiro e sou amigo de longa data, não mora na Vila Fundão, mas mora sim no Capão. Fiquei de cara, pois parece Contagem pra caramba. Mas é uma surpresa pra mim ficar surpreso com isso. Já tinha visto todos os filmes do Lincoln e a paisagem tá lá. Muita coisa parece Contagem mesmo. Mas “periferia é periferia”. E é mesmo?

Ele me chamou pra fazer still no último dia de filmagem do seu novo curta. Ingenuidade dele, né. Não sei fotografar direito, mas também não ia negar o convite. O filme dele fala sobre fazer um filme. Acompanhei o seu processo de direção, que é bem diferente, e claro, fiz umas fotos. Apesar de estar no set e entender essa metalinguagem, eu não sabia muito sobre o filme e isso foi bom, pois logo em seguida ele preparou a ilha pra mostrar o corte mais recente. Confesso que tava cansado e com sono e quase pedi pra ele me mandar o link pelo Vimeo pra eu poder assistir em casa. Mas fui na onda e assisti. Privilégio ver esses processos de perto. Sempre acho que acompanhar e opinar nos tratamentos de roteiro e nos cortes da montagem uma grande aula de várias matérias da vida.

Bem. Sobre o curta, acho que vai ser o melhor filme do Lincoln. E ter mais uma obra dele na roda é algo importante demais que talvez a gente vai ter uma dimensão mais exata depois de algumas décadas. Quem sabe a gente assiste esse em Tiradentes 2023? Se liga, curadoria!(risos) Tomara que até lá eu esteja com outro filme também. Mas tá tudo meio parado ainda, né. Quem não desistiu tem muita força. E esses últimos anos deixou todo mundo zoado da cabeça. Poxa vida. Por exemplo, o cinema preto brasileiro tava só lançando pedrada. Se a gente tivesse a continuação dos editais e tudo mais ia ajudar e fazer surgir muitas outras coisas fodas. Continua surgindo. Mas uma coisa tá travada aí e isso é doído de ver. Seguimos com determinação.

Para os manos da baixada Fluminense à Ceilândia

Atrasei pra caramba com esse texto aqui. Mas até então não sabia mesmo o que escrever. Entrei hoje no site de Tiradentes e vi o anúncio que o Adirley Queiroz será homenageado na Mostra de Tiradentes. Fiquei muito feliz. Quem me conhece já deve tá cansado de me ouvir falar que conheci ele num festival de Atibaia, que nem existe mais, lá em 2005 ou 2006. Lá eu assisti o “RAP, canto da Ceilândia” e chapei. E depois da sessão, eu e ele jogamos sinuca. Pensei surpreso: “Pô, o cara é de perifa igual a gente”. Naquela época eram pouquíssimos filmes de quebrada. Não que hoje tenha milhões, né. Mas...

Cheguei em Contagem e falei pro pessoal da Filmes de Plástico que tinha um diretor da Ceilândia que eles iam gostar de trocar ideia, e um pouco depois o Adirley apresentou o “Dias de Greve” no Humberto Mauro e acabou conhecendo a galera. Ceilândia e Contagem trabalharam juntos nos anos seguintes em projetos bem específicos.

Lembro naquela época o Adirley me chamar pra um Skype aonde a conversa não desenvolveu bem entre nós dois, não sei muito por que, talvez uma espécie de timidez meio sem sentido de ambos. Será que ele queria me chamar pra desenvolver algo? Fiquei pensando a gente trabalhando juntos num projeto. Adoraria escrever um roteiro pra ele dirigir, pois tô nessa vibe agora. No momento roteirista é o novo diretor, né. Ou quase isso. E isso é bom. Fui pra um lado de tentar escrever roteiros mais de uma forma intuitiva, pegando também coisas básicas que aprendi nas oficinas dos festivais e mostras e na Escola Livre de Cinema-BH. E escrever roteiros continua no meu top 3 das coisas que mais gosto de fazer num geral.

Adirley e eu perdemos contato, e creio que não necessariamente precisa ter um motivo. São coisas da vida. Daqui o mais profundo respeito por você, sua família e sua obra. Será que vai ter arquivo confidencial? Me pergunto, curioso com essa homenagem e a recepção dele. Depois de ir 12 anos seguidos, não vou poder ir pra essa edição de Tiradentes, então aproveito pra te mandar um abraço, cara. Respeito sempre. Nunca vou esquecer a sessão do “A cidade é uma só?” no Cine-Tenda. Quem tava lá sabe do que eu tô falando. Galera saindo da sala cantando a música tema enquanto os créditos subiam. Todo mundo vibrando na mesma energia. Difícil acontecer algo assim. Quem não tava perdeu, ou vai falar que tava, igual tanta gente que mente falando que foi no show do Marvin Gaye no Maracanã.

Texto originalmente publicado no livro “O Cinema Brasileiro em Resposta ao País, 2016-2021” - 25 anos da Mostra de Cinema de Tiradentes

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