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Opinião

O mar de lama que soterrou vidas e sonhos

Publicado em: Ter, 25/01/22 - 03h00

A notícia do rompimento da barragem de Córrego do Feijão, em Brumadinho, região metropolitana de Belo Horizonte, veio na forma de notificação pela tela do celular. Enviei mensagem para meus filhos que estavam por lá. O tempo passou, mas filho demora mesmo para responder mensagem de mãe. O silêncio com o entardecer transformou-se em inquietação verdadeira.

Há três anos perdi minha filha Camila, meu filho Luiz e minha nora Fernanda, grávida do meu primeiro neto, Lorenzo, arrastados pelo mar de lama como tudo o mais o foi. Era 25 de janeiro. Estavam em Brumadinho para visitar o Museu de Inhotim, animados por estarem juntos e pela chegada do bebê.

As imagens da televisão mostraram que o rompimento se configurou tragédia logo nos primeiros flashes. As mensagens e as ligações de amigos e familiares perguntando por eles me deram a certeza de que não houve resposta para ninguém.

O medo e a angústia de que algo muito grave poderia ter acontecido chegaram como taquicardia ao coração, agora inquieto. Mas esperança de mãe é eterna. Deveriam estar sem sinal e ilhados esperando resgate. Eram espertos o suficiente para se protegerem.

De novo, o silêncio. Noite adentro e sem pregar o olho durante toda a noite procurando informações sobre o que estava acontecendo, veio a certeza de que o melhor seria ir até Brumadinho.

E lá, diante de um cenário apocalíptico, percebi que não havia a menor chance de sobrevivência. Só me restava rezar e esperar.

Faltam palavras para descrever os sentimentos e o significado de tamanha perda. A lama arrastou tudo o que eu tinha. Tudo perdeu o sentido diante do vazio. A saudade sem fim me faz encontrá-los em pensamentos, sonhos, coisas que eles deixaram.

Não é um luto normal. A tragédia estava só começando no dia 25 de janeiro. Investigações posteriores indicaram que o rompimento era iminente e sabido. Uma tragédia anunciada. A indignação se converteu na mola propulsora da busca por justiça.

Mesmo sabendo que caminhos são tortuosos, eu preciso manter a esperança de que os responsáveis serão punidos exemplarmente para que outros saibam que há consequências sérias para atos inconsequentes. Eu preciso acreditar que a empresa será obrigada a reparar os danos pessoais e ambientais até o último centavo para que o quadro de diretores e os investidores aprendam que dá prejuízo colocar o lucro acima da vida humana. Eu quero chegar à conclusão de que a morte deles não foi em vão para que tragédias como esta não aconteçam de novo. É preciso mudar. Não é possível a sociedade aceitar calada a impunidade.

A criação do Instituto Camila e Luiz Taliberti é fruto da responsabilidade que temos em não ficar calados. Voluntários juntaram-se não somente para continuar a jornada da Camila e do Luiz na defesa do meio ambiente e das pessoas mais vulneráveis, mas também para ser e dar voz a quem precisa falar, para que tragédias como a de Brumadinho não se repitam no Brasil e no mundo. Afinal, os mortos dependem de nós para serem imortais.

Não se pode esquecer que vidas foram ceifadas por não terem valor diante da busca incessante por produtividade e lucro. É preciso que a humanidade resgate o sentido da vida em toda sua plenitude. Não temos planeta B.
“Tentaram nos enterrar, não sabiam que éramos sementes.” Somos sementes, todos nós!

A força e o poder de transformação da semente dão frutos e sombra, protegem nascentes de água e germinam árvores frondosas e perenes, que preservam o meio ambiente. Somos sementes de amor e justiça porque temos força para continuar honrando a memória e o legado que Camila, Luiz, Fernanda e Lorenzo nos deixaram.

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