Siga-nos nas redes sociais:

Opiniões e artigos eventuais de representantes dos diversos campos da política, economia, academia e sociedade

Artigos

Olhem bem a serra do Curral!

Publicado em: Sáb, 14/05/22 - 03h00
Artigo Olhem bem a serra do Curral, de Juliana Sales | Foto: Infografia O TEMPO

“Vi os montes, e eis que tremiam”, disse Drummond. Era a serra do Curral o objeto da preocupação poética – quem sabe profética – do grande escritor das inquietações minerárias de Minas Gerais. O que Carlos Drummond de Andrade não podia prever, ou podia, era o fato de os montes da serra do Curral tremerem ainda em pleno século XXI pela potencial instalação de empreendimento minerário licenciado pelo próprio governo de Minas Gerais.

A serra do Curral é monumental. É monumento do nosso patrimônio natural, ambiental, paisagístico, arquitetônico, histórico, cultural e social. Comporta vegetação nativa, nascentes de água e é lar originário e permanente de diversas espécies de animais. É essencial para a garantia de um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Mas a serra do Curral é também um monumento de afeto coletivo e pertencimento metafísico. Ela é literalmente um bem de uso comum do povo, subjetiva e objetivamente.

Esse sentimento popular é a força motriz de um dos maiores ou quiçá o maior movimento coletivo em prol do meio ambiente que já vivenciamos em Minas. Ele reúne milhares de pessoas em torno de uma causa comum, que no imaginário social ultrapassa a simbologia da capital mineira: a serra do Curral sustenta a sensação nata de se pertencer e estar aos seus pés.

A comoção geral e a indignação da sociedade referenciam a letra inaugural da Constituição Federal, que diz que “todo poder emana do povo”. A iminência de uma possível destruição de um bem natural identitário revelou um povo unido na defesa de princípios e na defesa de suas relações afetivas, sobretudo.

Isso revela que, para muito além das decisões institucionais, há uma decisão originária – e que na minha opinião é o gene e objetivo da política – que é o respaldo popular e uma espécie de validação aos atos públicos pela sociedade representada. Se o povo exerce o poder também diretamente, a manifestação em prol da serra do Curral é um exemplo categórico de “vox populi, vox Dei”.

E, sendo uma das vozes eleitas do povo e pela crença pessoal de que sem sustentabilidade a vida se torna insustentável, fiz coro ao grito pela montanha. Acionei o Ministério Público Federal, requeri audiência pública e entrei com ação na Justiça para pedir o óbvio: proteção em tempos de grandes destruições.

Sou mais uma que se desassossega com o fato de estarmos na contramão do desenvolvimento sustentável e na proteção da vida. Sustentar o ideal que defende a serra do Curral é prover a sobrevivência, de todas as formas. E a política precisa abraçar de vez as licenças sociais.

Noto certa temporalidade nas comoções humanas. Minas Gerais foi cenário triste da lama que soterrou parte grandiosa da nossa história e da nossa gente. Há quem questione se os desastres em Mariana e Brumadinho não seriam suficientes para não repetirmos os erros passados.

Ora, isso não deveria sequer ser comparativo ou parâmetro de suficiência. As terras devastadas e em luto minerário jamais deveriam existir. Mas, já que ardem na história mineira, jamais deveriam ser esquecidas. A lama invisível paira numa espécie de semiconsciente coletivo, prestes a acordar.

Minerar a serra do Curral não é vocação. A extração de minério de ferro imposta às suas montanhas é uma afronta à memória e ao pertencimento dos mineiros, além de uma grave ameaça ambiental. É um limite ultrapassado, em que não haverá volta. Assim como as águas e as vidas do Paraopeba, assim como o leito do Doce. Minar a vida desde a foz, dentro da lei e fora da justiça. Olhem bem a serra do Curral e a protejam!

Juliana Sales é vereadora de Nova Lima, arquiteta e urbanista

---

O TEMPO reforça o compromisso com o jornalismo mineiro, profissional e de qualidade. Nossa redação produz diariamente informação responsável e que você pode confiar.

Siga O TEMPO no Facebook, no Twitter e no Instagram. Ajude a aumentar a nossa comunidade.