Fabricio Carpinejar

Poeta escreve todos os domingos no Magazine e no Portal O Tempo

Meu problema com o panetone

Publicado em: Dom, 19/12/21 - 03h00
 
Vou cometer uma blasfêmia: nunca gostei de panetone. 
 
Meu paladar é infantil e não combina muito com damasco, mamão, laranja, limão, maçã, cidra e a maldita, polêmica e cancelada uva passa.
 
Não que eu não coma frutas, mas frutas secas  são um refinamento adulto que não me cabe, não me deixa com gula. 
 
Nem considero recheio, não há como levar em conta que é uma surpresa deliciosa dentro do pão doce. Vejo como um pedágio, uma obrigação. 
 
Entra na categoria de tira-gosto: tira o gosto de tudo. 
 
Quem inventou o panetone estava se sentindo culpado pela dieta, e forrou o glúten com uma salada de frutas. 
 
Entendo que é uma tradição europeia, de enfrentar o inverno, com o congelamento do alimento, que perde a textura e o sabor em nome da conservação. 
 
Mas só serve para quem come antropologia, não para mim. 
 
Jamais ofereci o panetone clássico para os meus amigos, talvez seja o presente ideal para o inimigo secreto. 
 
Em casa, ele ficava como sobremesa em cima da mesa, e restava como objeto decorativo nos próximos meses. 
 
Assumia a função imóvel de vaso, de decoração natalina. 
 
Ele não envelhece, pois não tem vida. 
 
Tanto que demorei para descobri-lo comestível. Vi meu tio beliscando nacos e me espantei. Pode mastigar? Jurava que era da família cenográfica dos enfeites. 
 
Tornou-se um dos grandes símbolos da solidão no meu imaginário infantil: triste como um panetone, isolado como um panetone, quieto como um panetone. 
 
Até que na minha maturidade surgiu o chocottone, que transgrediu o ideário de discrição e simplicidade. Foi como unir a Páscoa com o Natal. Minha criança ressuscitou. 
 
Saímos da essencialidade espiritual para a completa extravagância. 
 
Virei viciado em seus flocos de chocolate, em sua calda inesperadamente derretida em seu interior. Já lembrava um fondue. Como que conseguiram criar um braseiro natural? 
 
Tenho agora dificuldade de dar de presente porque sempre penso que é capaz de me faltar. Despertou o egoísmo em sua versão mais abrupta e selvagem. Odeio repartir mesmo tendo consciência de que é exagerado para uma única pessoa. 
 
Atingiu, inclusive, a minha generosidade paterna, a mania de ceder o melhor aos filhos. 
 
Tornei-me um homem avarento numa época do ano destinada a grandes ações solidárias. Comecei a frequentar o supermercado sozinho para esconder o produto da esposa e estocá-lo em esconderijos entre as minhas roupas. Meu cartão de crédito extrapolou o seu limite. Acordo de madrugada para engordar alguns quilos em segredo. 
 
Não é minha culpa. Sou fraco perto do chocottone. Não resisto. Ele hipnotiza o sujeito com seu jeito de ovo disfarçado, de caixa de bombons aos pedaços. Enfeitiça o consumidor com a sua glicose subcutânea, com o licor do riso fácil. 
 
Repare o quanto ele é moldado para o individualismo, resistente ao trato comunitário. Não permite fatias simétricas, não é macio como uma torta, os pedaços vão para o prato nem um pouco triangulares. O risco é arrancar metade dele de uma vez e devorá-lo sem perceber. 
 
Minha família mineira e gaúcha encontra-se seriamente ameaçada.

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