Fabricio Carpinejar

Poeta escreve todos os domingos no Magazine e no Portal O Tempo

O baleiro da bolsa

Publicado em: Dom, 16/01/22 - 03h00
Quando criança, eu sempre sonhei em ter um baleiro. Daqueles de armazém. Redomas sobre redomas para girar e abrir as tampas de alumínio numa roleta-russa da vida, para nascer de novo.  
 
O baleiro é o aquário da infância. Somos os peixes. As cores das embalagens são as nossas escamas reluzindo ao fundo do vidro.  
Lembro-me de que eu me esticava para enxergar o segundo e o terceiro andar dos globos no balcão. Ficava na ponta dos pés, tendo que decidir quantas balas poderia levar com o meu trocado. Era uma expectativa sempre milagrosa de receber mais do que imaginava.  
 
O atendente Alencar embrulhava os doces em papel-seda com o cordão amarrado em quatro vias, e eu o carregava como se fosse uma torta para casa, com as duas mãos. Depois, repartia com meus três irmãos em porção igual. Não poderia vir número ímpar que dava briga. Já selecionava com Alencar de par em par para evitar entrar no sacrifício e acabar com menos.  
 
Nunca comprei um baleiro. Nem preciso mais. A bolsa da minha esposa já cumpre os requisitos.  
Ela não resiste a arrebatar balas e chicletes em postos de gasolina, farmácia, bancas de revista e caixas de supermercado. É tão certo quanto estragar as unhas logo depois de sair da manicure.  
 
Nunca está faltando nenhuma goma de mascar entre nós. Às vezes, a mercadoria é tamanha que ela parece contrabandista ou revendedora.  
Não reclamo do hábito ou da abundância. Jamais vou criticar algo em que sou beneficiado. 
 
Casamento é realizar os sonhos de pequeno. Você casa para cuidar da criança que já foi um dia. Vive dando aos filhos os presentes que nunca teve como receber. Certo ou errado pedagogicamente, torna-se uma vingança das frustrações mais antigas.  
 
Eu posso escolher os drops mais variados como nunca escolhi na minha meninice. E de graça!  
Quando vamos sair de carro juntos, nem me preocupo com uma resposta negativa a um pedido de balinhas. É assim quando vamos ao cinema. É assim quando vamos ao teatro.  
 
Estarei sempre bochechando nos espaços públicos, com a língua ocupada, chupando algum sabor. Tento não fazer barulho. Tento me conter.  
Nossos hálitos são perfumados de tutti-frutti, de cereja, de morango. Nas noitadas, usamos o mentol do Halls preto. Nos passeios vespertinos, preferimos as frutas. Recusamos unanimemente canela, que evoca os chás curativos dos enjoos.  
 
Beatriz, inclusive, me ensinou a fazer bolas, coisa que não tinha aprendido antes. Bolas escandalosas até estourar e encher a barba com os fios colantes.  
 
Para o mineiro, balas são a sobremesa portátil, o tira-gosto, o charme dos intervalos, a cortesia para ganhar a confiança de um sobrinho emburrado ou de um cliente difícil. Andam prevenidos com os bolsos e potes cheios. 
 
A minha sensação em Minas é que o aquário da infância foi derramado todo no oceano. Aqui, não vou morrer pela boca.

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