Fabricio Carpinejar

Poeta escreve todos os domingos no Magazine e no Portal O Tempo

Tudo joia?

Publicado em: Sáb, 30/10/21 - 03h00
Eu comprei um brinco de surpresa para Beatriz quando havia nenhuma data comemorativa entre nós, muito menos culpa da minha parte para sofrer de ataques românticos.
 
É que eu vi uma joaninha de prata na vitrine e ela costuma estender o seu braço para os passeios do bichinho, pensei que seria uma lembrança da sua lembrança.
 
Foi uma distração apaixonada. Já estamos na fase de carinhos fora de época, quando identificamos o temperamento do par em nossos caminhos.
 
Também não ficamos mais ofendidos com troca de presentes. É uma teimosia infantil  dos casais que só ocorre até os cinco anos de casamento. Depois, vem o despojamento sereno. Não serviu, não combinou, não ficou do jeito que queria? Sem polêmica, passa-se na loja e escolhe-se um segundo item. A substituição não é levada para o plano pessoal, como se fosse desamor ou desprestígio.
 
Nem sempre acertamos os presentes, mas sempre acertamos ao fazer uma homenagem.
 
O que é comum acontecer com a minha esposa é seu dedo podre por aquilo que é mais caro. Ao optar por uma segunda peça, nunca cubro o investimento. Meu regalo costuma ser a metade do valor do item escolhido e ela repõe o faltante.
 
Jamais dou um presente inteiro, virei apenas sócio das compras. Às vezes, sócio minoritário.
 
No caso do brinco da joaninha, ela trocou por um colar com preço três vezes maior. Gastou mais do que desejava no balcão. E terminou por descobrir exatamente o que eu tinha despendido, centavo por centavo.
 
Não me traumatizei. Ainda achava que a joaninha iria combinar, tive o azar de que ela encontrou algo que combinava mais.
 
Mas consegui compensar. Ela carregou o colar para a viagem no seu estojo de bijuterias. Não é que a corrente se encheu de nós?
 
Ela se desesperou. Eu, acostumado a cubos mágicos na infância, assumi o desafio.
 
Sentei na mesa da sala de estar do hotel, estiquei o novelo da correntinha e catei o início das pedras uma por uma.
 
A cada dez minutos, ela vinha me dissuadir da tarefa: “deixa de lado, não vai conseguir, vamos nos atrasar, está tarde”.
 
Eu sentia que estava comprando de volta o colar para Beatriz. Porque estava oferecendo agora o que tenho de mais valioso: a minha atenção. Eu me importava sinceramente com a sua fantasia, para que pudesse sair para jantar do jeito que imaginou, sem precisar escolher uma combinação suplente.
 
Quando atingi o desenlace definitivo, por duas horas desfazendo os ninhos, ela gritava, aplaudia, parabenizava. Ela me atacou com beijos e abraços.
 
Lembrava o alvoroço choroso de felicidade e a festa quando a pedi em casamento com a caixinha aveludada das alianças. Eu me surpreendi com a reação, porém percebi que talvez realmente estivesse de novo ajoelhado diante dela, anonimamente, discretamente. Ajoelhei-me com as pernas do meu tempo. Transformamos nosso tempo em devoção. Entendíamos o que era importante um para o outro. Não descartaríamos nada que viesse de dentro.
 

Mais do que ganhar presentes, mineiro ama salvar o que tem. Ama consertar a joia da sua vida.

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