Filosofadas

Carol Rache é escritora, empresária, praticante e instrutora de yoga

A teoria da fogueira

Publicado em: Sex, 20/08/21 - 03h00

Quero começar pontuando que emoções negativas não existem.

Fomos ensinados a rotular as emoções incômodas como negativas, e isso é um desserviço ao nosso psiquismo. De fato, existem emoções de valência negativa: aquelas que nos causam incômodo ou sensações desconfortáveis. E nós temos o péssimo hábito de empurrá-las para longe.

É fácil explicar que, quando fazemos isso, deixamos de aproveitar o precioso valor escondido por trás delas, mas é muito complicado lidar com o medo e a repulsa que nos sequestram, diante da invasão delas.

A teoria da fogueira te ensina a lidar com suas emoções sem se perder nelas, porque te conta como criar uma distância a partir da qual consegue aproveitar o calor sem se queimar.

Vou explicar.

A função da fogueira é aquecer. Mas, se você se aproxima demais, ela queima. Ao mesmo tempo, se você estiver muito distante, você passa frio.

Com as emoções desafiadoras, funciona igual: se você se empurra pra longe, não aproveita a função delas. Se você se aproxima muito, se afoga nelas. Mas, se você consegue olhar para elas mantendo uma distância saudável, aproveita o benefício sem se queimar.

Fomos doutrinados a evitar dor, e isso nos faz correr léguas do fogo. E o efeito colateral é que nossa pouca habilidade de lidar com o desconforto acaba fazendo qualquer faísca se tornar um incêndio dentro de nós. Nós nos perdemos nas nossas próprias emoções e, a cada vez que somos devastados por elas, reforçamos o medo e a necessidade da distância.

O paradoxo é que, quanto mais distantes, menos habilidosos nos tornamos para lidar com elas. Perdemos os aprendizados e, quando nos distraímos, nos queimamos.

Todas as emoções são úteis. Por isso não cabe classificá-las como negativas. Há sempre um reajuste sendo sugerido por elas, mas há pouca disponibilidade em nós para percebê-las como mensageiras.

É preciso treinar a nossa mente para conter o impulso de sair correndo quando avistamos a fumaça. É preciso, diariamente, criar momentos nos quais conseguimos nos colocar na posição de observadores de nós mesmos. É preciso presença e clareza para que possamos, pouco a pouco, aplicar a teoria da fogueira.

Porque, no fim do dia, a expectativa de que o fogo nunca vai nos invadir é ilusória. O que nos torna equilibrados não é a ausência de emoções desafiadoras, e sim nossa capacidade de tirar proveito delas.

Quem é você, diante da fogueira? A pessoa que se queima ou a que perde a oportunidade de se aquecer?

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