Filosofadas

Carol Rache é escritora, empresária, praticante e instrutora de yoga

Não se cura o machismo odiando os homens

Publicado em: Sex, 23/07/21 - 03h00
A palavra “cura” nem deveria estar na mesma frase que o verbo “odiar”. Onde há ódio, as possibilidades de cura são extintas. 
 
Que nós vivemos num contexto que convida à desconstrução do sistema radicalmente machista, que por muitos anos ditou as regras da nossa cultura, não é novidade. Em muitos aspectos, a nossa sociedade foi estruturada em pilares que oprimiram as mulheres e desequilibraram a relação delas com o universo masculino. Houve desrespeito, houve falta de liberdade e houve abusos. Isso é inegável. 
 
Contudo, se esse movimento de desconstrução for sustentado por ódio, vingança e guerra, só estaremos criando uma distorção que ficará de legado para as próximas gerações. 
 
A cultura machista deu excesso de poder aos homens. Mas também roubou deles o direto à sensibilidade e limitou o valor deles aos resultados profissionais e à virilidade. De uma forma muito diferente da que nos oprimiu, eles também foram aprisionados por uma cultura que ofereceu protocolos de condutos engessados: “homens não choram, e mulheres não têm voz”.
 
O resultado? De um lado, elas precisaram conter os próprios gritos. Do outro, eles aprenderem a engolir suas lágrimas. 
 
Quando nós, mulheres, nos percebemos vítimas exclusivas desse sistema, não podemos ignorar o fato de que distorções culturais atuam na sociedade como um todo. Ninguém escapa.
 
Prova de que o sistema é arraigado é que nós, mulheres, também, inúmeras vezes, sustentamos pensamentos e julgamentos machistas e condenamos outras mulheres da mesma forma que detestamos ser condenadas. 
 
A melhor forma de combater o machismo é perceber que parte de nós ainda sustenta a ideia de que homens são superiores às mulheres. Em maiores ou menores proporções, isso ainda escapa em algumas condutas nossas, ainda que conscientemente a ideia já não faça nenhum sentido. 
 
Quem dera se compreender com a mente trouxesse mudanças na prática. Prática requer treino. Treinar novos olhares, novas condutas, novas percepções. É disso que o mundo está precisando. 
 
Colocar homens como vilões e mulheres como vítimas só evidencia uma posição na qual nosso poder continua sequestrado. Vítimas não têm voz ativa. Como poderemos colocar nosso grito para fora se acreditamos que o problema é alguém tapando a nossa boca, e não nossa própria rouquidão? 
 
É mais inteligente treinar a voz, afinar o timbre e praticar a expressão. Se queremos ser escutadas, é necessário que mostremos ao mundo que nos escutar vale a pena. E isso não se constrói com discurso de ódio, mas com serenidade, assertividade e – por que não? – firmeza. 
 
Diminuir o outro para provar nosso valor só mostra que nem nós o conhecemos. Isso não só descredibiliza a causa, como acaba afastando o movimento do que, inicialmente, motivou a busca: o equilíbrio, e não a guerra pela superioridade

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