Laura Medioli

LAURA MEDIOLI escreve aos sábados. laura@otempo.com.br

Viva eu!!!

Publicado em: Sáb, 14/08/21 - 03h00

Caminhando num fim de semana com meu marido, de tênis, camiseta e bastante empolgação, disse: “Acho que vou voltar a treinar vôlei...”
 
Ele, achando graça, respondeu: “Tamanho para isso você já tem”.
 
É, ninguém nunca me levou a sério nessas questões.
 
Futebol e vôlei sempre foram meus esportes preferidos. Quando mocinha, inventei de treinar vôlei. Morava na Pampulha e pegava dois ônibus para parar no clube Olímpico, no alto da Serra.
 
Embora fosse um palito, com meus 38 kg de potência, no alto de meus três meios metros, nunca me passou pela cabeça que aquele esporte não era o ideal para mim. Faltavam-me força, tamanho, fôlego, entre outras coisas... Pra bem dizer a verdade, só existia mesmo a vontade. E a vontade era tanta que mal percebia a cara de desânimo do técnico ao me ver jogar.

“Mais força, garota!!! Não puxa a reeeeede, menina!” (e eu não só puxava, como passava debaixo dela, vivia do lado de lá). “Isso! Saca com vontade!” (vontade eu tinha, o que me faltava era força).
 
Enfim, foi um ano de treinamentos com direito a roxos, exaustões, joelhos esfolados e pulsos inchados. Menoooor problema, eu adorava jogar, e pronto. O pior é que, após tantos treinos, comecei “a me achar”, se é que me entendem.
 
Me achava tanto que, numa praia do Espírito Santo onde alugavam redes e bolas, corria sempre para ser a primeira. Com a posse da bola, saía em busca da equipe. Entre amigos e desconhecidos, logo, logo os times eram formados. Como “dona” da bola, tinha direito de ficar até o final. E ficava. Na maior cara de pau.
 
Até que um dia, durante a formação das equipes, ele surgiu: um gigante oxigenado, cujas pernas eram maiores que eu, disposto a jogar. Lembro que do time eu não conhecia praticamente ninguém. Além do gigante – que, vim a saber depois, era um jogador da seleção carioca de vôlei –, havia outros jogadores, altos, atléticos e esportistas. E, no meio deles, eu.
 
Em pouquíssimo tempo, o gigante queria me matar. Matar mesmo, olha que isso não é uma força de expressão. Estava tão irado com a companheira de equipe que a turma adversária me convidou para mudar de lado, antes que as ameaças do outro se concretizassem. “Pôrr... garota!!! Se tu não sabe jogar, cai fora, pôrr...!!!” E me olhava com tanto ódio que acabei aceitando rapidinho o convite do time adversário. Mudei de lado, para a infelicidade dos tão gentis e compreensivos jogadores. Pensa bem, estávamos ali de férias, para nos divertir, ficava um tempão na fila sob o sol infernal para conseguir uma bola, adorava jogar... E tinha mesmo que aguentar desaforos de um troglodita que parecia estar numa final da Superliga???
Dane-se.
 
 Mesmo estando do outro lado, o ódio sobre mim continuava. Sabe aquele famoso saque do Bernard, “jornada nas estrelas”, em que a bola ia pro espaço e voltava??? Pois é, o cara pelo jeito inventou um “viagem ao centro da Terra”. Mirava em mim e BUUUM, lá vinha bomba. De cima pra baixo, quase que eu visito o Japão. Enfim, me rendi. Por essas e outras, deixei as quadras. Claro que como jogadora, pois como torcedora continuo presente, gritando feito uma louca e torcendo cada vez mais pro meu time de coração, “campeão de tudo”, Sada Cruzeiro, vencer.
 
Enfim, viva o vôlei brasileiro! Viva a seleção feminina, que nas Olimpíadas nos trouxe a medalha de prata. E a masculina, que, apesar de ter jogado bem, não conquistou a premiação esperada. E viva aqueles que, mesmo sem tamanho, sem força, sem fôlego e sem noção, persistem. Então, viva eu, né?

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Esteves 6:45 PM Aug 15, 2021
Eu jogava Futsal e não entendo pq esse Esporte não tem espaço nas Olimpíadas.
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