Paulo Navarro

Precisamos falar de nossas crianças
Publicado em: 25/08/19 - 03h00

Crianças por dentro

Daniel Becker é pediatra. Participou de inúmeros cursos no Brasil e no exterior. É pioneiro no Brasil da Pediatria Integral: uma prática voltada para o bem estar e o desenvolvimento pleno da criança, que amplia o olhar e o cuidado não apenas para tratar e prevenir doenças, mas para promover a qualidade de vida da criança e da família.

Crianças pra fora

O conselho, diagnóstico e receita de Daniel é simples, porém cheio de detalhes – e até de poesia. Por isso, na falta de espaço, tentaremos resumi-lo. Bom proveito, porque o tema é realmente fundamental. “Crianças, já para fora! Por isso dizia Nelson Mandela: ‘O verdadeiro caráter de uma sociedade é revelado pela forma como ela trata suas crianças’”. 
Pela forma como trata o cidadão, os animais e a natureza também.

Crianças condenadas

“No Brasil, vivemos um paradoxo. Nossas crianças vêm sendo muito maltratadas pela sociedade. As crianças mais pobres, a maioria. Logo, segundo Mandela, temos um péssimo caráter. Negamos a elas direitos básicos, como saúde, moradia, educação, alimentação. Nós as tratamos com violência e, se elas se rebelam, nós oferecemos a prisão. Mas mesmo para as crianças privilegiadas em sua posição social, crianças bem cuidadas, a coisa também não vai bem”.

Crianças à força

Nós cometemos talvez não crimes, mas pecados “capitais”. Peguemos Gabriela, uma criança de classe média, típica, começando pela gravidez de sua mãe, que quer ter um parto natural. Rapidamente a indústria médico-hospitalar a convence de que o melhor é a cesárea. Uma argumentação altamente mentirosa, mas muito convincente. No Rio de Janeiro, 93% dos partos são feitos por cesariana.

Crianças em pó

O parto normal, este momento de amor, é substituído por um ato médico e cirúrgico, em que a mulher é dopada, imobilizada. É claro que a cesárea pode ser humanizada e bem-feita. Estamos criticando o exagero. E o leite materno? Um dos pediatras pode dizer: Leite em pó, se ela precisar, ou tiver fome. “Em dois meses, essa criança está desmamada, perdendo as maravilhas que o leite materno pode oferecer. ‘Culpa’ da indústria”. Sai o amor, entram a propaganda e o médico marqueteiro.

Crianças congeladas

Gabriela cresce, a mãe volta a trabalhar, vovó não pode cuidar e ela vai passar às vezes de 6 a 12 horas numa instituição. Vai chegar em casa, seus pais estão mortos de cansaço. Nos fins de semana, passeios com a babá. Assim perdemos o convívio com nossos filhos, na infância terceirizada. Os pais de Gabriela não podem cozinhar? Comida congelada, industrializada, veneno. Gabriela vai para uma creche chiquérrima, que tem crianças desde os quatro meses.

Crianças perdidas

Gabriela tem uma energia absolutamente explosiva, ela precisa correr, brincar, pular, sair e, no entanto, a nossa vida urbana não permite que ela faça isso. Então, para “combater”: oito a dez horas conectadas com seus eletrônicos. Tchau brincadeiras, jogos, convívio familiar, de humor, de risadas, formas de meditação. Aparelhos até para quando fazem cocô: iPinico, “iPotty”.

Curtas e finas

* Quando a criança mais precisa da consciência, oferecemos: inconsciência, a distração absurda e compulsiva, matando a criatividade e a imaginação.

* Na TV, Gabriela é massacrada pela publicidade. Ela é educada mais por publicitários do que por professores.

E o massacre da publicidade continua. No lugar do parquinho infantil, shopping, instilando o consumismo obsessivo.

* A hipervalorização da aparência, a futilidade e coisas piores.

* Compromissos! Podem rir: aulas de meditação. Depois, a erotização, que usa crianças de 7, 8 anos para vender moda, meninas e mulheres objeto.

* Os pais têm medo da criança adulta e, em vez de limites, a colocam num trono. Gabriela passa a ser a rainha da família.

* Seus pais não têm autoridade. Gabriela fica meio maluquinha, insegura; não desenvolve mecanismos para lidar com a frustração, dor, dificuldade.

* A criança fica rebelde, brigona, birrenta, doente. Qual a solução? O pior dos pecados, a “medicalização tarja-preta”!

* Nos EUA, 15% das crianças hoje tomam tarja preta.

* A solução passa pela mudança de dois fatores: tempo e espaço.

* Para nossos filhos, o que temos de mais precioso hoje? O Tempo! É preciso dar tempo de convívio.

* Em relação ao espaço, imaginem um lugar saudável. Uma cidade saudável, um bairro saudável; saúde, qualidade de vida; um bom lugar para viver.

* Como seria esse lugar? A natureza, claro! Isso demonstra a importância da natureza. A natureza está profundamente associada à saúde, à alma humana.

A gente sabe o que nos faz saudável. Não é médico, hospital, remédios. São esses fatores todos, sabemos disso. Saúde e 
sustentabilidade.

* Tudo que faz bem à saúde faz bem ao meio ambiente e vice-versa.

* Andar de bicicleta faz bem ao corpo, faz bem à cidade, reduz os engarrafamentos, a poluição.

Transporte coletivo faz bem para o tempo de convívio, reduz o estresse, reduz a poluição.

* Orgânicos fazem bem ao corpo, aos rios, à terra, aos animais. As coisas sempre se retroalimentam. 

* Crianças, já para fora! Famílias, já para fora!

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