Paulo R. Haddad

Inépcia

Publicado em: Qui, 12/11/20 - 03h00
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É bastante provável que iremos vivenciar, no próximo biênio, um período semelhante ao que Keynes descrevia, nos anos 30, como “uma situação crônica de atividade subnormal por um período considerável sem nenhuma marcada tendência para uma retomada ou para um completo colapso”. É o que denomino de uma economia em banho-maria: sem veias abertas e sem impulso sinergético.

Não devemos aceitar esse status quo, que significa, para um país com imenso potencial de desenvolvimento sustentável, uma opção pela mediocridade. Seria aceitar a persistência do desemprego, do empobrecimento da população, da ampliação das desigualdades sociais e da degradação ambiental. Precisamos mudar a trajetória das políticas econômicas e direcionar o país para uma grande transformação.

O primeiro passo, antes de formular, consensualizar e implementar políticas de crescimento com equidade social e sustentabilidade ambiental num contexto de estabilidade monetária, é sair desse imbróglio no qual nos encontramos em razão de uma política de austeridade interrompida pelo acúmulo de déficits fiscais, por reformas institucionais inacabadas e pela confiança desmesurada no potencial mobilizador de crescimento das forças desacorrentadas dos mercados.

Baseando-nos em experiências recentes das portas de saída adotadas, em diferentes contextos históricos, para superar esse tipo de imbróglio, podemos vislumbrar pelo menos três estratégias de transição, entre outras: o refinanciamento bastante flexível da dívida das famílias visando reduzir a sua fragilidade financeira e recompor a sua renda disponível para reacender, com intensidade, o consumo agregado, como ocorreu nos EUA pós-crise de 2008; a negociação pactuada com poderosas cadeias de valor, como no início do governo Itamar Franco, quando, na mesa de negociação, discutiu-se a concessão de incentivos fiscais e financeiros versus compromissos empresariais com metas de produção, inovação e emprego; e, como terceira estratégia, a cuidadosa elevação da dívida pública (até três pontos percentuais do PIB?) com vinculação específica para financiar um conjunto de projetos de investimentos que estão atualmente paralisados, desde que não apresentem conflitos legais, em termos de licitações e licenças ambientais, com o TCU e o MPF.

É evidente que cada uma dessas estratégias poderá apresentar eventuais controvérsias sobre os seus impactos não intencionais: o aumento do passivo do Banco Central, a elevação das taxas de juros de longo prazo, o risco de uma leve escalada inflacionária etc. Mas, em economias de maior complexidade, como a do Brasil, muitas vezes ocorre da seguinte forma: você resolve um problema sob o risco de gerar um novo problema. Exemplo: para realizar o objetivo de instituir corretamente o auxílio emergencial, o governo federal expandiu em cinco vezes o déficit fiscal de 2020.

Agora, se faltar determinação política para enfrentar a inépcia da atual política econômica, estará se optando por preconceitos ideologicamente convenientes, o que poderá levar a atual administração a fazer mais do mesmo e pior. É bom lembrar que, pode demorar, mas o novo sempre vem.

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Lucas 4:18 PM Nov 12, 2020
O próprio Keynes encontrou a solução para a crise da década de 30, e suas ideias resultaram no período mais próspero da história dos EUA. Não foi muito diferente do que fez a Europa no pós guerra. E mesmo recentemente as grandes potências foram Keynesianas por um curto período após a crise de 2008. Isto é, todo mundo conhece a solução, mas por conta de terraplanistas econômicos como Paulo Guedes, insistimos em fazer o que comprovadamente nunca funcionou.
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