Vittorio Medioli

Antes de secar a credibilidade
Publicado em: Dom, 12/05/19 - 04h30

O que dizer da Minas do século XXI, que vem encolhendo economicamente ao mesmo tempo em que afunda em dívidas e no descrédito?

Já passaram por aqui figuras como Juscelino Kubitschek, Rondon Pacheco, Israel Pinheiro, pessoas que brigavam para atrair investimentos e estender tapetes ao progresso e ao desenvolvimento. Personalidades que tiraram Minas do buraco e saíram do mandato com patrimônio menor do que tinham ao entrar, sem qualquer processo nas costas ou desconfiança de enriquecimento ilícito.

Minas caiu, nos últimos 20 anos, do segundo para o quarto lugar em importância econômica no país. O resultado é uma sentença inapelável, para quem perdeu o bonde e os investimentos, o protagonismo, ficando vergonhosamente em silêncio, enquanto atividades econômicas eram levadas para outros Estados.

Os setores de mineração, siderúrgico, automotivo, de transformação e refino de petróleo perderam pesadamente em volume, valor e expressão. Exatamente seus setores mais pujantes foram rapinados. A Vale, nascida em solo mineiro, deixou de ser do “Rio Doce” e acabou com o mesmo rio; impune, repetiu o desastre com o rio Paraopeba, afluente do São Francisco. Desse último rio da integração nacional, Minas perdeu grande parte das águas, cedendo assim a possibilidade de irrigar milhares de seus hectares no semiárido menos desenvolvido do Estado.

O Polo Acrílico, que Lula garantiu para Betim em 2007, ao par da expansão da Fiat, migrou, no apagar das luzes de seu mandato, para Camaçari, na Bahia, e a produção automotiva, para Pernambuco, Estado natal dele, presidente. A planta de amônia prevista para Uberaba se desfez como um sonho. Minas, como a Roma da Idade Média, caiu no obscurantismo e foi saqueada por invasores que levaram suas joias e riquezas, seus anseios e esperanças, deixando ruínas para trás.

Enquanto a depredação acontecia, as lideranças do Estado se mantiveram mudas, como se o arrombamento acontecesse na casa de um inimigo distante. Os potenciais de mineração, siderurgia, automotivo, transformação química, irrigação foram retirados do Estado sem qualquer compensação, reivindicação, contrapartida. Mais de 20% do PIB real se perdeu. Pior, num período em que as despesas e os compromissos públicos aumentaram irresponsavelmente.

Minas tem a maior velocidade de afundamento num país que o Banco Interamericano de Desenvolvimento considera o que mais gasta com aposentadoria na América Latina. A Previdência consome 12,5% do PIB, e, se não houver mudança, o gasto se ampliará em quatro (50,1%), alcançando, em 2065, volume maior que a própria arrecadação pública. E por aqui, apesar das previsões de quebra, a elite do Estado continua imóvel. Não há sequer entidades de classe, representantes políticos, partidos que saiam de áreas de conforto para se insurgir contra a desfeita. Não se aperceberam, ou trocaram o silêncio por outras vantagens inconfessáveis?

Minas se afundou e apelou para o desrespeito da Constituição, adotando práticas do fim do mundo. Passou a subtrair, numa atitude criminosa inédita no Brasil, as minguadas receitas constitucionais dos municípios destinadas ao atendimento da saúde e educação básicas, que servem aos mais carentes.

E se hoje a situação financeira está ruim, a ausência de planos e propostas concretas deixa o horizonte tenebroso. O número de servidores inativos (aposentados) subiu de 146 mil para 264 mil em 12 anos, enquanto os ativos continuam estagnados em 400 mil, mas a folha aumentou em termos reais 50% no mesmo período, tornando-se impagável.

A relação de servidores públicos por habitantes em Minas é estupidamente fora de parâmetros em relação aos Estados em situação de regularidade. O Estado de São Paulo tem 1.470 servidores para cada 100 mil habitantes, enquanto Minas ultrapassa 3.150. E os serviços públicos em Minas são significativamente inferiores em qualidade e quantidade.

O governo recém-empossado, esmerado em críticas e propostas mirabolantes, esqueceu-se de se preparar com planos que enfrentem uma dívida de R$ 135 bilhões e um déficit anual superior a R$ 11 bilhões. 

Pior é que, em Minas, cada setor organizado, pensa em seu naco, em seu ganho, em seu conforto. Vantagens injustificáveis em relação à carência da maior parte da população. Sem preocupação com o conjunto e com os lados mais desprotegidos. O Estado está sob risco de um caos, até porque oposições aqui existem torcendo para o pior.

É imprescindível que o governo consiga uma adesão ampla a um projeto necessariamente ousado e inadiável, que ainda não apresentou. É uma realidade histórica que a força, a credibilidade e o respeito de um governo sangram rapidamente se não se apresentarem no momento mais favorável: o começo.

(6) comentários

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Paulo Barbosa 2:00 PM May 15, 2019
Há décadas que Minas vem perdendo importância econômica e política no cenário nacional. Com este artigo esclarecedor, mostrando a triste realidade, Vittorio Medioli , põe o dedo na ferida, de um estado que poderia dar tudo certo, para melhorar a qualidade de vida de seus habitantes, mas, enveredou por um descaminhamento de seu crescimento.
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Esteves 9:13 PM May 14, 2019
Situação é muito complicada, por exemplo, Dizem que Verba do IPVA não é exclusiva pra melhoria de ruas, asfaltos e estradas etc. Fiz pagamento e não ganho um Livro do Estado pela Educação, na Saude quando preciso pago Particular e vi uma rua que tem buraco de pelo menos 45x55 quase 3 semanas já só com uma Placa laranja tampando. Na minha opinião era mais lucro Contribuinte comprar cimento, areia e brita e acabar com aquele buraco na rua porque se for depender de Retorno do Imposto pago...
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Ferdinando Gomes 11:02 AM May 14, 2019
Concordo plenamente com a análise, porém discordo da crítica ao governo recém-empossado. Como planejar sem acesso aos dados financeiros oficiais e recebendo um orçamento definido na legislatura anterior?
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Gino Bronchi 2:21 PM May 13, 2019
... administrar com parcimônia e eficácia. O que mais se lamenta é a entrada de pessoas nos comandos do Estado absolutamente desprovidas do sentido de urgência, análise de riscos e planejamento estratégico para enfrentamento dos números absolutamente adversos diante da penúria de investimentos causadas pela inação de governantes capacitados. Será que não encontramos esse super executivo para a montagem de um plano de amortização e resgate das riquezas ocultas desse Estado outrora proeminente.
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Gino Bronchi 2:17 PM May 13, 2019
Diagnósticos precisos tem sido traçados pelo ilustre editorialista do jornal O Tempo. Minas com servidores públicos em excesso conta no entanto com órgãos e fundações públicos que estruturam todo um sistema de ações dos governantes. O lamentável e insidioso é que esses governantes nem de diante de números irrefutáveis e alarmantes insistem em práticas onde inexiste a seriedade no trato da coisa pública, há falta de governança e sobretudo capacidade gerencial para administrar com parcimônia ...
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Boça 2:09 PM May 13, 2019
Com Lula , Pimentel e Aécio não tem estado que aguenta !!!!!
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