Vittorio Medioli

Moro e os cleptocratas
Publicado em: Dom, 16/06/19 - 04h30

A importância de Sergio Moro para o Brasil pode ser medida voltando a memória para a época pré-Lava Jato, quando se vivia numa cleptocracia desmedida e de assalto continuado ao Estado. Vivia-se uma orgia de crimes que enriqueciam figuras esquálidas e políticos, eleitos e reeleitos com os trocos dos roubos realizados pelo mecanismo de arrombamento da República.

A grande organização conspiratória, dita mecanismo, não conhecia uma abstinência tão prolongada nos últimos 30 anos como agora. Ficou enredado e enfraquecido pelas investigações, pelos processos e pelas penas que fecharam os fluxos de dinheiro fácil. Bilhões que o Coaf nunca pressentiu, viu ou confirmou.

No passado, o mecanismo sofreu poucas derrotas em sua açambarcante e longeva expansão. Reergueu-se e se fortaleceu depois da CPI dos Anões de 1993/1994, que, sem prender um culpado, apenas afastou uma dúzia de parlamentares de baixa estatura e grande apetite.

Depois de uma década, se deu um episódio adverso para a corrupção com a CPI dos Correios (mensalão) em 2005/2006, mas nada que se possa comparar ao abalo gigantesco, mil vezes maior, determinando uma parada do mecanismo, como a Lava Jato conseguiu a partir de 2014. Foram cinco anos de restrições, de condenações, humilhações, penas e reclusões.

A operação Lava Jato tem em Sergio Moro sua imagem e símbolo. Deu um alento ao país, fez acreditar na Justiça e influenciou a forma de enxergar e votar. Provocou uma quebra de paradigmas com a prisão de líderes da bandalheira.

Embora os desvios de recursos tenham ultrapassado alguns trilhões de reais ao longo das duas últimas décadas, o Estado recuperou uma parcela irrisória. Os acordos de leniência na época de Dilma e Temer foram ridículos e ofensivos na proporção dos rombos provocados ao erário, centenas de vezes superiores. Com Moro no Ministério da Justiça e o Coaf em suas mãos, se abre uma banda larga de recuperação e reconhecimento dos esconderijos dos tesouros amoitados.

Essa notícia abalou ainda mais o mecanismo, que se valia da omissão do Coaf e passou a colocar em risco centenas de figuras ainda não enquadradas, e mais ainda os tesouros de bilhões de dólares que foram desviados ilegalmente.

Nos últimos dias, enquanto os brasileiros labutam para sobreviver à mais prolongada crise econômica de todos os tempos, o novo Congresso, dominado pelas antigas raposas, impediu que o Coaf fosse em direção a Moro. Mas o que mais querem é tirar o próprio ministro. A conjuração visa à restauração da cleptocracia que deixou saudade e viúvas.

Neste momento desesperador e crítico, qualquer ação vale o risco. Mesmo o mais ousado dos lances, como é a revelação de troca de mensagens de Moro com Dallagnol, que teria sido realizada, supostamente, por um hacker israelense. Sujeito que no Brasil se hospedou, conforme revelam fontes a favor de Moro, num apartamento do recém-encarcerado José Dirceu.

Moro era um simples juiz federal do Paraná, que quebrou a regra da impunidade dos intocáveis e, como diria Catão, “delenda est”. Tem que ser destruído e reduzido a pó e, ainda, receber uma camada de sal, como foi com Cartago, pois ele tirou a soberania das raposas no galinheiro.

Embora Moro não tenha sido perfeito, foi inegavelmente o principal defensor da legalidade ou, mais precisamente, da novidade que tentou se instalar no Brasil, investigando os crimes contra o patrimônio nacional. Acabou assumindo uma importância central, sem precedentes neste país arrombado. Associado e ainda conjugado ao espírito fogoso de um presidente sem medo, Moro passou a ter a única, e talvez irrepetível, capacidade de destruir o mecanismo e libertar a economia nacional dos parasitas que a devastam.

Há de se reconhecer que combater uma guerra contra bilionários, sem limites de escrúpulo e ganância, “donos do Brasil”, foi um ato heroico, inaudito, quase irrepetível. Moro ficará na história, e, se o Brasil o perder, será a perda de uma oportunidade rara.

As revelações da troca de mensagens, atribuídas a um israelense, bem por isso protegido pela nacionalidade, teriam sido realizadas, mais provavelmente, por órgão de inteligência federal durante os governos anteriores.

A versão rocambolesca jogada a público mostra que para Moro não faltam inimigos poderosos e que ele chegou “por milagre” aonde está.

Nas mensagens reveladas não há ilicitude, talvez excesso de zelo em manifestar seu entendimento em relação a um procedimento de apuração de crimes que lesaram a pátria em dezenas de bilhões.

O mecanismo não quer sucumbir. Muitas figuras não sabem outra profissão que aquela que exercem há décadas e transmitem a seus descendentes: ladroar.

É uma guerra soturna e sem limites para restaurar a cleptocracia no Brasil, e isso passa pela extinção de Moro. Infelizmente.

(12) comentários

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Gil Teodoro Arantes 10:19 PM Jun 16, 2019
Belíssima análise de Medioli. Os que vociferam contra Moro são aqueles que saúdam os ladrões,os assaltantes e os corruptos que nos governaram por muito tempo e que levaram nosso país à bancarrota. Moro entrará para a história como um juiz exemplar e corajoso.
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Maxwell Smart 11:16 PM Jun 17, 2019
Sr Vittorio Medioli, como todo ser humano cansado de “apanhar “ da classe política e também das autoridades constituídas para nos protegerem, mas que nos aviltam, vejo com certa desconfiança suas palavras. Espero que o senhor seja um dos primeiros políticos a se levantarem contra este “mecanismo”. Que de suas letras, o Sr. passe para a ação, munido de sinceridade, força e sentimento cívico pelo nosso País e por seu Povo. O povo tem que saber que o inimigo não está à sua direita ou esquerda. Sua salvação não está no centro. A salvação vem em homens e mulheres em cargos públicos, e que são abnegados, honestos, sinceros e que não se deixam corromper pelo “mecanismo”. Deus queira que mais pessoas que tem o poder nas mãos, e que podem enfrentar o sistema, o siga. Há muitos, muitos anos, não deposito a esperança nas mãos de pessoas públicas e autoridades em geral. Seja bem-vindo, se quiser defender o certo. Espero que não seja o único nem o último. Deus lhe dê força, sempre é tempo de recomeçar!!!
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Antônio Jair 9:46 AM Jun 17, 2019
1) Renato Canzano= Imprensa precisa parar de dar voz a condenados presos, legalmente condenados. Se isso virar moda faremos programas de entrevistas só com detentos. O Brasil tem que parar de ser chamado de país do futuro, e finalmente caminhar na direção correta. Temos péssimos hábitos de voltar ao passado para buscar explicações de fatos que ocorrem em nosso presente. Que relevância tem as conversas mostradas entre Moro e Deltan Dallagnol? Exceto pelo interesse espúrio da REDE GLOBO e FOLHA...
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Antônio Jair 9:44 AM Jun 17, 2019
Cirval = Mentiroso, corrupto e lavador de dinheiro Lula tem é que calar a boca. Ainda tem a cara de pau de falar dos outros, como se fosse inocente. Foi condenado legalmente pelo juiz Sérgio Moro e pelos Tribunais em três Instâncias, por unanimidade, mas quer denegrir Moro e a Lava Jato que o encarcerou. Lula, sujeito maligno é intragável e se acha o dono da cocada preta. Cale-se!
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Antônio Jair 9:41 AM Jun 17, 2019
CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público): "A divulgação de supostos diálogos (Sérgio Moro com Deltan Dallagnol) obtidos por meio absolutamente ilícito, agravada por esse contexto de sequestro de contas virtuais, torna impossível aferir se houve edições, alterações, acréscimos ou supressões no material alegadamente obtido. Além disso, diálogos inteiros podem ter sido forjados pelo hacker ao se passar por autoridades e seus interlocutores."
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Antônio Jair 9:39 AM Jun 17, 2019
Pardan = Indignação! Um absurdo dar ouvidos a hackers que praticam ilegalidades em escutas telefônicas (são reais ou manipuladas eletronicamente=fake news?) e a um criminoso Lula, legalmente condenado e preso, que arruinou o País criando o maior esquema de corrupção para se perpetuar no Poder!
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Fernando Cruz 9:38 AM Jun 17, 2019
Finalmente um pouco de lucidez no Jornal!! Olha a noticia quentinha! O Hacker que "vazou" as informações pro The IntercePT foi descoberto! Evgeniy Mikhailovich Bogachev, Russo, recebeu US$308 mil para fazer o serviço! FBI colocou a cabeça dele a premio por 3 milhões de dólares! Isso vocês não vão ver na extrema-imprensa! É só googlar!! Voces descobrirão também que o tal Glenn do IntercePT é defensor de nazistas! Que curioso, não é mesmo? Nada como a luz do sol!!
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Chaves 8:10 PM Jun 18, 2019
Fernando Cruz, por acaso sua fonte é o "Pavão Misterioso"?! Me poupe, né?!
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Fernando Cruz 5:16 PM Jun 17, 2019
Não adianta negativar crianças! A verdade dói mesmo! Ok?
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Antônio Jair 9:37 AM Jun 17, 2019
Sérgio Moro: "O Ministro da Justiça e Segurança Pública não reconhece a autenticidade e não comentará supostas mensagens de autoridades públicas colhidas por meio de invasão criminosa de hackers e que podem ter sido adulteradas e editadas. Reitera-se a necessidade de que o suposto material, obtido de maneira criminosa, seja apresentado a autoridade independente para que sua integridade seja certificada."
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Vilma Reis 9:48 PM Jun 16, 2019
Perfeita sua análise. Parabéns!
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DÁRIO MARCOS FERREIRA 6:43 PM Jun 16, 2019
Como sempre a coluna esta impecável,parabéns!
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