O experimento do Facebook

Humor se altera quando somos expostos apenas a notícias ruins

Qua, 20/03/19 - 03h00

Em 2014, professores da Universidade da Califórnia e da Universidade de Cornell se uniram ao Facebook para fazer uma experiência inusitada com 689 mil usuários moradores dos Estados Unidos. Sem que esses internautas soubessem, o Facebook alterou a linha de notícias de metade deles para que esses só vissem notícias boas que seus amigos publicavam. A outra metade, no entanto, ficou exposta apenas às postagens ruins dos amigos, colegas e familiares. O resultado não poderia ser mais óbvio: as pessoas que ficaram expostas apenas a más notícias publicadas pelos seus amigos passaram também a postar mais coisas negativas nos seus perfis. O inverso aconteceu com quem via apenas coisas positivas, ou seja, passaram a postar mais notícias boas nas suas redes.

Bom, esse “experimento” foi extensamente criticado nos Estados Unidos e no mundo, primeiramente pela violação ética de realizar experimentos em humanos sem que estes soubessem do estudo e o tivessem autorizado. Em segundo, esse estudo de 2014 foi a primeira prova mundialmente conhecida de que as redes estavam devassando a nossa privacidade e, ainda de forma mais assustadora, ficava claro que, se Mark Zuckerberg quisesse, ele poderia manipular a todos nós. Afinal, se você usa Facebook, Instagram ou WhatsApp, você está nas mãos do Mark, que é o dono de todas.

Agora pense comigo: se está provado que nosso humor e comportamento se alteram quando somos expostos diariamente apenas a notícias ruins, será que esse poder se limita apenas às redes sociais? Será que TVs, rádios e jornais teriam esse poder também? Confesso que, para mim, assistir ao “Jornal Nacional” diariamente virou um processo de tortura. Não há uma notícia boa na pauta jornalística. Só tragédia. Só violência. Só corrupção. Quem vive unicamente de “Jornal Nacional” para se informar deve ter uma visão muito trágica sobre a vida. Imaginar que esse é o programa mais visto no Brasil, com audiência em quase 70% das residências brasileiras, sempre me faz pensar sobre esse experimento do Facebook.

Será que as pessoas sabem que, graças a um excelente trabalho das forças de segurança de Minas, os crimes violentos no Estado caíram quase 33% entre 2017 e 2018? A mortalidade infantil caiu pela metade nos últimos 20 anos. O brasileiro médio hoje vive mais tempo, com mais saúde e mais dinheiro do que há duas décadas. O PIB per capita do brasileiro nada menos que triplicou nesse período. Por que, então, estamos tão infelizes? Por que estamos tão agressivos? Por que é impossível postar algo em uma rede social aberta sem ver nos comentários alguém criticando ou atacando algo? Por que está tão difícil dialogar?

Há poucos dias, eu voltei de uma África do Sul que se parecia muito com o Brasil em suas qualidades, mas que demonstra ainda hoje problemas graves que nosso país enfrentava há duas décadas. O pobre de lá é mais pobre e mais excluído. As marcas do Apartheid ainda são muito visíveis numa população que há pouco tempo deixou de se separar entre brancos e negros. Ainda assim, ao andar pelas ruas das diferentes cidades que percorri, eu não conseguia tirar de mim um sentimento de déjà-vu: mesmo com todos os problemas que aquele país enfrenta, a alegria das ruas me lembrava o Brasil de 20 anos atrás. Os brasileiros já foram referência mundial pela sua alegria e encantamento. Então o que será que aconteceu? Se nós, como população e como país, melhoramos em quase todos os aspectos em relação a 20 anos atrás, por que estamos tão infelizes? Por que estamos preferindo o ódio (de esquerda e de direita) em vez de nos permitir a união?

Se liderar é mostrar o caminho a seguir, então convido todos e todas a buscarmos uma atitude mais positiva em nossas vidas. Postar e falar sobre coisas boas ajuda, comprovadamente, a melhorar o ambiente a nossa volta. Otimismo traz otimismo. Esperança traz esperança. Tolerância traz tolerância. Não vai ser fácil, mas, mais do que nunca, é necessário. 

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