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Uma chance para a cidade

Desativação do aeroporto Carlos Prates e qualidade de vida

Qui, 17/09/20 - 03h00
audima

No início deste mês, o Ministério da Infraestrutura anunciou que o aeroporto Carlos Prates será desativado até dezembro de 2021, atendendo uma demanda antiga da população. No dia 9, nosso mandato na Câmara dos Deputados apresentou, junto com o deputado Rogério Correia (PT), um pedido para que a União doe o terreno à Prefeitura de Belo Horizonte para destiná-lo a projetos de interesse social. A área, de 547 mil metros quadrados, está localizada no bairro Padre Eustáquio, na regional Noroeste de Belo Horizonte, e tem potencial para ser convertida num espaço arborizado, com opções de lazer para a comunidade.

A previsão do fim das operações aéreas no Carlos Prates vem como um alívio para as pessoas que moram na região e que há anos denunciam os transtornos causados pelo tráfego das aeronaves e os acidentes recorrentes, que ameaçam a segurança e preocupam a comunidade. O aeroporto foi inaugurado em 1944, quando não havia habitações no entorno. De lá para cá, o cenário mudou, e a região se transformou em uma das mais populosas de BH, com mais de 300 mil habitantes.

Caso o terreno seja doado, a sua destinação poderá ser decidida junto com a comunidade, mas, para isso, a Prefeitura de BH deverá assumir o compromisso de escutar a população. Essa decisão precisa envolver quem conhece as realidades e as necessidades dos moradores da região em um processo que garanta a realização de audiências públicas, conversas com especialistas e a participação popular em todas as fases.

A regional Noroeste tem apenas dois parques – o Parque Ecológico do Caiçara e o Parque Maria do Socorro Moreira – e também apresenta a menor taxa de área coberta por árvores e plantas das nove regionais, conforme levantamento do Sistema Local de Monitoramento de Indicadores dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Referências internacionais bem-sucedidas podem nos inspirar para encontrar o melhor modelo para BH. Em Quito, no Equador, um antigo aeroporto hoje abriga o Parque Bicentenário. É um espaço urbano em que 90% do terreno é de área verde. Além disso, existem estruturas para a prática de esporte, lazer para crianças e um centro de convenções. Em Berlim, na Alemanha, o sítio aeroportuário de Tempelhof, construído em 1941, desde 2010 dá lugar a um parque com jardins comunitários, áreas de piquenique e pistas para corrida e ciclovias. A decisão sobre o reúso da área foi resultado de uma consulta pública em que a maioria dos cidadãos se opôs à transferência do terreno para a iniciativa privada. Atualmente, o parque é uma das áreas verdes mais frequentadas da capital alemã.

A redestinação do aeroporto Carlos Prates pode, ainda, contribuir para reduzir o problema das enchentes em BH. Ao torná-lo uma área verde, a cidade ganharia mais uma alternativa sustentável para absorção da água da chuva, diferente do modelo de urbanização historicamente adotado pelo Executivo municipal. Pode parecer pouco, mas já seria uma medida positiva para enfrentar a emergência climática que se intensifica no planeta e tem feito com que as chuvas sejam cada vez mais fortes na nossa cidade.

O aeroporto está localizado entre duas bacias hidrográficas: a do ribeirão do Onça e a do Arrudas. Os cursos d’água foram totalmente tampados em nome de uma ideia equivocada que associa o progresso a asfalto e concreto. Experiências em outros países nos mostram que a solução duradoura para o problema das enchentes passa pela renaturalização dos cursos d’água e pelo aumento da capacidade de drenagem ao longo das bacias. A transformação da área do aeroporto em parque, com o consequente aumento da área verde e permeável, além de humanizar a cidade, pode ajudar a diminuir o impacto das fortes chuvas nos rios que correm debaixo de ruas e avenidas da região.

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