Vítimas da queda de avião

Bebê resgatado completou 1 ano na selva da Colômbia

Cristín fez aniversário em 26 de maio, e os militares organizaram uma festa simbólica naquele dia

Por Agências
Publicado em 10 de junho de 2023 | 16:09
 
 
 
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As crianças de 13, 9 e 4 anos e o bebê, que completou 1 ano enquanto estava na selva, foram resgatados com vida na região de San Jose del Guaviare, na sexta (9), em caso que vem comovendo o país. Uma mamadeira, restos de frutos e abrigos improvisados na selva foram algumas das pistas que nortearam as equipes da Colômbia nas operações de buscas de três crianças e um bebê, que estavam desaparecidos havia 40 dias, após um acidente aéreo.

Eles chegaram a um hospital militar de Bogotá neste sábado (10) desnutridos, levemente desidratados e com várias picadas de insetos. Durante a viagem à capital, as crianças foram atendidas por um grupo de pediatras, que se encarregou de prestar os primeiros socorros e de hidratá-los. Não foram divulgados outros detalhes do estado de saúde dos menores, que agora recebem atendimento médico especializado.

Buscas

A saga para encontrá-los na Amazônia colombiana começou em 1º de maio, quando o monomotor Cessna 206 caiu após decolar em Araracuara com destino a San Jose del Guaviare. Além das crianças, estavam a bordo três adultos: o piloto, Hernando Morales, o líder indígena Herman Mendoza e a mãe dos menores, Magdalena Mucutuy.

A aeronave só foi localizada 15 dias depois da queda, quando militares anunciaram que o corpo do piloto havia sido encontrado. Os outros dois adultos também morreram, embora autoridades não tenham especificado data e local dos óbitos. O avião ficou preso entre as árvores e teve a parte frontal destruída.

No mesmo dia, um cão farejador encontrou uma garrafa numa área afastada do local do acidente. Mais de cem soldados foram mobilizados para a região, e a esperança de que as crianças fossem encontradas com vida aumentou. As buscas foram batizadas de Operação Esperança e seguiram rastros em uma área de 323 quilômetros quadrados, segundo autoridades. Dezenas de indígenas de cidades próximas, acostumados a se movimentar na Amazônia, juntaram-se aos militares.

As condições hostis do local dificultaram as buscas. Segundo autoridades, as equipes de resgate tiveram de enfrentar fortes chuvas e animais silvestres. Os socorristas navegaram durante nove horas em um rio para chegar à região do acidente e depois encontraram árvores de até 40 metros e áreas lamacentas.

"Sempre nos perguntávamos isso: se era difícil para nós, com todas as condições e equipamentos, estar ali, imaginávamos as crianças pequenas e sem nenhum equipamento", disse o socorrista Carlos Villegas ao site local El Tiempo.

Fátima Valencia, a avó das crianças, chegou a gravar uma mensagem no idioma indígena huitoto avisando os netos que eles estavam sendo procurados e pedindo que não avançassem pela floresta. As equipes de busca reproduziram o áudio em um alto-falante ao sobrevoar a área.

Três semanas após o acidente aéreo, os militares encontraram duas fraldas e um par de chinelos e garantiram que haviam passado a menos de 100 metros dos menores. Frutas que as crianças comeram para sobreviver também foram localizadas. Autoridades, então, decidiram reduzir as buscas para uma área de 20 quilômetros quadrados.

Em 17 de maio, soldados encontraram um acampamento improvisado feito de galhos e gravetos, e um cachorro farejador localizou uma tesoura e laços de cabelo. Nesse mesmo dia, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, anunciou erroneamente que as crianças haviam sido encontradas. Ele apagou a publicação e se retratou horas depois, quando instituições e familiares negaram a informação.

Cristín, o bebê do grupo, completou um ano em 26 de maio, e os militares organizaram uma festa simbólica naquele dia. Na ocasião, as crianças estavam perdidas na selva havia quase um mês.

Na última quinta-feira (8), quando as buscas já estavam em segundo plano na mídia colombiana devido à uma crise que explodiu no governo Petro com acusações de financiamento ilegal de campanha, os militares relataram que Wilson, um cão farejador envolvido na operação, havia desaparecido na selva.

O pastor belga de seis anos foi o cachorro que encontrou a mamadeira de Cristín no meio da vegetação. Segundo o Exército, é possível que ele tenha ficado "desorientado com a complexidade do terreno". Os militares localizaram as pegadas do cão próximas às dos menores.

As crianças e o bebê foram encontrados nesta sexta-feira. Militares divulgaram uma foto em que os menores estão cercados por militares e indígenas que participaram das buscas. Todos eles aparecem magros e sem sapatos. Wilson, o cachorro, continua desaparecido.

"Eles estão juntos e fracos; vamos deixar os médicos avaliá-los", disse Petro após o anúncio, atribuindo o episódio a um "exemplo total de sobrevivência". Os irmãos foram encontrados a cinco quilômetros do ponto onde a aeronave caiu, segundo o Ministério da Defesa.

Após o resgate, a avó Fátima Valencia disse que Lesly, 13, a criança mais velha do grupo, manteve os irmãos em segurança. "Ela sempre cuidava deles quando a mãe trabalhava. Dava-lhes casabito [pão de farinha e mandioca] e qualquer fruta do mato", disse à agência de notícias AFP.

Valencia exaltou as mulheres indígenas, chamando-as de "muito guerreiras". Agora, ela aguarda em um hotel da cidade de Villavicencio o momento de ver os netos.
"Não baixamos a guarda em nenhum momento. Rezamos todas as noites", disse a avó ao agradecer os militares e indígenas que participaram das buscas. "E também à mãe terra, que os libertou".

Huitotos

Segundo a Organização Indígena da Colômbia, os huitotos vivem em harmonia com as condições hostis da floresta amazônica e preservam tradições como a caça, a pesca e a coleta de frutas silvestres.

De acordo com um militar responsável pelas buscas, todos envolvidos no acidente fugiam dos dissidentes do acordo de paz entre o antigo grupo guerrilheiro Farc e o governo eles recrutam e aterrorizam os habitantes da região.

Ao desembarcarem em Bogotá, as crianças foram recebidas sob aplausos por militares, indígenas e socorristas. (Folhapress)

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