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Dólar tem nova corrida na Argentina às vésperas de eleição presidencial

País vive uma nova corrida do dólar blue, que lastreia os preços no país e subiu 18% em apenas 14 dias

Por Agências
Publicado em 06 de outubro de 2023 | 19:41
 
 
 
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A faxineira Rosana López, 42, cobrava 1.400 pesos a cada hora de trabalho há duas semanas, mas agora está cobrando 1.800. "Os preços subiram muito", diz a diarista, que está tentando repor o dinheiro que lhe roubaram há poucos dias na periferia de Buenos Aires, onde os furtos estão cada vez mais comuns, ela alerta.

A duas semanas das eleições presidenciais, a Argentina vive uma nova corrida do dólar "blue", que lastreia os preços no país e subiu 18% em apenas 14 dias. Se um argentino fosse a uma casa de câmbio paralela no último dia 22 (o que é proibido, mas frequente), pagaria cerca de 745 pesos por dólar. Nesta sexta (6), já estaria pagando 880.

Enquanto isso, o governo de Alberto Fernández e do ministro da Economia Sergio Massa, candidato à Presidência, continuam segurando o valor da moeda estrangeira usado em transações oficiais a 367 pesos para tentar conter a inflação e, agora, reforçam mais uma vez o controle sobre a compra de divisas.

Para o economista argentino Ignacio Galará, do Centro de Estudos Monetários e Financeiros de Madri, o principal motivo para a subida recente do câmbio é a aproximação das eleições e o favoritismo do ultraliberal Javier Milei, que promete dolarizar a economia e fechar o Banco Central.

"Hoje, sem ser a moeda oficial, o dólar já tem uma demanda enorme e uma oferta muito contraída na Argentina. Se passar a ser a moeda legal, seu valor vai disparar ainda mais, portanto te convém comprar dólares hoje, o que faz o preço subir", explica ele, lembrando que Milei deixou uma imagem de "candidato sólido" no debate no último domingo (1º).

O pesquisador cita também outros dois fatores que podem estar contribuindo para a alta da moeda: primeiro, uma flexibilização do governo a alguns tipos de câmbio para fomentar certos setores, como as micro e pequenas empresas. Segundo, a ação do mercado financeiro que, num contexto de alta inflação, a todo tempo usa seus pesos para comprar dólares na bolsa ou outros mercados.

Para minimizar esses efeitos, a Comissão Nacional de Valores, órgão federal que regula o mercado de capitais, divulgou nesta sexta uma série de novas regras para a venda de títulos regidos por leis estrangeiras. Quem opera nesse segmento só poderá obter dólares cinco dias após a conclusão das operações.

O objetivo é desacelerar a compra da moeda e, consequentemente, os preços. Além disso, as autoridades intensificaram as operações policiais nas ruas contra o mercado paralelo, o que paralisou a venda de dólares nesta quinta (5) e também pressionou o valor da moeda no momento da reabertura nesta sexta.

CNaquele dia, a Alfândega, a Receita e a Polícia Federal, por exemplo, realizaram 51 operações de busca e apreensão em bancos, escritórios de contabilidade e companhias de várias regiões da Argentina. A suspeita é que 176 empresas tenham falsificado informações para simular importações fictícias e retirar US$ 400 milhões do país.

O economista Galará, porém, afirma que as medidas são paliativas e simbólicas: "É como querer parar o narcotráfico detendo um consumidor recreativo ou um pequeno vendedor", diz. "Mas atende à necessidade de acalmar um pouco o mercado considerando que as eleições são em duas semanas."

As perspectivas são de que o dólar, e portanto a inflação, subam ainda mais depois do primeiro turno de 22 de outubro. Foi o que ocorreu em agosto, depois do triunfo inesperado de Javier Milei e de uma desvalorização parcial do peso promovida por Massa, atendendo a uma exigência do FMI para liberar empréstimos. Parte das vendas chegaram a ser paralisadas, já que não havia referência para os preços.

Finalizado o mês, contou-se uma alta de 12,4% no índice geral de preços --somando 124% em um ano--, o que é considerado altíssimo até para os padrões argentinos. As expectativas são de que o número de setembro, que será divulgado na próxima quinta (12), também não fique muito atrás, gerando mais notícias negativas para o ministro da Economia.

(Julia Barbon / Folhapress)

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