liberdade restrita

George dos Santos paga R$ 2,7 milhões de fiança para não ficar preso em NY

Deputado de origem brasileira foi acusado formalmente de ter cometido 13 crimes, como fraude, desvio de verbas e lavagem de dinheiro

Por Agências
Publicado em 10 de maio de 2023 | 21:02
 
 
 

O deputado republicano George Santos, filho de imigrantes brasileiros pego em uma série de mentiras, apresentou-se à Justiça nesta quarta-feira (10), em Nova York, nos Estados Unidos. Ele é investigado pelo Departamento de Justiça e acusado formalmente de ter cometido 13 crimes.

Santos se declarou inocente de todas as acusações na audiência realizada em um tribunal federal de Long Island. Ele foi liberado sob fiança de US$ 500 mil (R$ 2,47 milhões), paga por três indivíduos cujas identidades não foram reveladas. Também teve sua liberdade de circulação restringida e só poderá se deslocar entre Nova York e Washington. Para ir a outros destinos, precisará de autorização prévia.

O controverso deputado terá de responder a sete acusações de fraude, três de lavagem de dinheiro, uma de desvio de verbas públicas e duas sobre declarações falsas perante a Câmara dos Representantes. Se condenado, o republicano pode pegar até 20 anos de prisão, na soma das penas máximas previstas.

Segundo a acusação, Santos induziu apoiadores a doar dinheiro a uma empresa sob o falso pretexto de que os valores seriam usados para apoiar sua campanha. Em vez disso, diz a acusação, o republicano usou a verba para despesas pessoais, incluindo roupas de grife de luxo e contas de cartões de crédito.

Os promotores também acusam Santos de solicitar auxílio-desemprego de forma fraudulenta durante a pandemia - ele teria recebido US$ 24 mil (cerca de R$ 118 mil) em benefícios quando, na verdade, estava trabalhando em uma empresa de investimentos. Ainda segundo a acusação, Santos apresentou declarações financeiras falsas em 2020 e em 2022 para enganar eleitores sobre sua condição financeira.

As denúncias devem aumentar a pressão de seus correligionários e eleitores para que ele renuncie - em março, o Comitê de Ética da Câmara abriu uma investigação contra o congressista. O órgão investigará eventuais atividades ilegais em sua campanha, além de possíveis violações de leis federais na atuação dele numa empresa e da acusação de assédio feita por um assessor que trabalhou em seu gabinete.

Apesar dos processos em curso, Santos deve seguir atuando no Congresso enquanto responde aos processos criminais. "Nos EUA, você é inocente até que se prove o contrário", disse na terça-feira (9) o presidente da Câmara, Kevin McCarthy, também republicano. À emissora CNN ele afirmou que analisará as acusações antes de decidir se o correligionário deve ser afastado da Casa.

Depois de deixar a sala de audiências, Santos foi cercado por jornalistas e também teve que ouvir gritos de "mentiroso" vindos do público presente. Ele alegou que a velocidade do processo contra ele —cinco meses— "não faz sentido" e chamou o caso federal de "caça às bruxas", ecoando a mesma acusação que o ex-presidente Donald Trump fez contra suas respectivas denúncias.

"Eu acredito que sou inocente", disse Santos, depois de voltar a afirmar que não vai renunciar ao cargo e agradecer aos líderes de seu partido por "serem pacientes" com ele e com seus processos na Justiça. O deputado então entrou em um Ford Bronco dourado que o aguardava, buzinou uma vez e deixou o local.

No Twitter, voltou a falar em "caça às bruxas", fazendo um trocadilho em inglês em que, ao mesmo tempo, ataca adversários e tenta desviar a atenção de si. "Cadê o Hunter?", escreveu Santos. A palavra, que significa "caçador", é também o nome do filho do presidente Joe Biden e um dos alvos preferenciais dos republicanos por supostas irregularidades envolvendo casos de corrupção e conflito de interesses.

Santos foi eleito deputado em novembro passado. A corrida eleitoral chamou a atenção porque os dois principais candidatos eram abertamente gays, e Santos se tornou o primeiro republicano da comunidade LGBTQIA+ a conquistar um assento na Câmara. Após sua vitória, o jornal The New York Times mostrou que o deputado mentiu sobre diversos aspectos de sua vida para atrair eleitores —do currículo acadêmico e profissional às fontes de renda e origens familiares. Santos disse ter diplomas da Universidade de Nova York e do Baruch College, apesar de nenhuma das instituições ter registro de sua frequência, e alegou ter trabalhado nos grupos financeiros Goldman Sachs e no Citigroup, o que também não foi comprovado.

O republicano ainda teve de admitir que não é judeu. Ele costumava contar uma narrativa sobre os avós que emigraram da Ucrânia para o Brasil fugindo do nazismo, mas ambos nasceram no Rio.

O político tampouco conseguiu explicar a origem da doação de ao menos US$ 600 mil (R$ 3 milhões) que fez à própria campanha. Segundo ele, o dinheiro veio de uma firma que abriu na Flórida, onde a lei determina que titulares de empresas com domicílio no estado. Uma análise de dados da Dun & Bradstreet estima que, até julho do ano passado, a companhia de Santos teve receita de US$ 43,6 mil (R$ 218 mil).

Santos também foi acusado por um ex-militar de ter promovido uma arrecadação de fundos para custear a cirurgia do cachorro do veterano, que à época vivia na rua, e roubado os US$ 3.000 (R$ 15 mil).

Depois, as investigações apontaram para um esquema mais amplo de desvio de verbas públicas e lavagem de dinheiro. O procurador federal, Breon Peace, disse que as acusações desta quarta buscam responsabilizar Santos por várias "deturpações descaradas". "Em conjunto, as alegações o acusam de agir em repetidas desonestidades para chegar aos salões do Congresso e enriquecer", afirmou.

No Brasil, Santos foi indiciado em 2008 por estelionato, depois de ter furtado um talão de cheques que usou para fazer compras em Niterói (RJ) —os cheques de R$ 2.144 não tinham fundos. Em janeiro, a Justiça do Rio de Janeiro reabriu uma investigação contra ele. O advogado contratado pelo deputado para defendê-lo no processo foi condenado por participar de um grupo de extermínio ligado à antiga "máfia das vans" em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro.

Afundado em suspeitas, Santos anunciou no mês passado sua candidatura à reeleição. Em nota, o republicano, por óbvio, não mencionou as controvérsias que marcam seu histórico e descreveu-se como um "lutador" que atua com independência no Congresso americano.

Parlamentares republicanos veem o caso Santos com cautela. Embora o partido tenha conquistado a maioria na Câmara nas eleições de novembro, a margem estreita faz com que a retirada do deputado da Casa pudesse significar um novo assento para um democrata em um pleito extraordinário.
Santos é apoiador de Donald Trump e foi a Manhattan em abril, quando o ex-presidente se apresentou à Justiça e se tornou o primeiro ex-presidente dos EUA réu por uma acusação criminal.

AS 13 ACUSAÇÕES CONTRA GEORGE SANTOS

  • Fraude (7)
  • Ele teria induzido apoiadores políticos a doar dinheiro para uma empresa que controlava e teria recebido auxílio-desemprego durante a pandemia mesmo estando empregado
  • Lavagem de dinheiro (3)
  • Acusações estão relacionadas ao suposto esquema de desvio de doações de apoiadores para a empresa
  • Declarações falsas (2)
  • Acusação diz respeito às declarações de renda não comprovadas durante suas duas campanhas eleitorais, em 2020 e 2022
  • Desvio de verbas públicas (1)
  • Crime ligado ao esquema de fraude do auxílio do governo, de quem teria recebido mais de US$ 27 mil

(Folhapress)

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