Repercussão nacional

‘Israel e palestinos são vítimas do Hamas’, diz líder israelita em Minas

“Queremos a paz, a criação de dois Estados soberanos, que se respeitem e que vivam em paz, diz o presidente da Federação Israelita de Minas Gerais (Fisemg), Beny Cohen

Por Gabriel Rodrigues
Publicado em 19 de outubro de 2023 | 06:00
 
 
 

Enquanto o mundo vive dias de tensão com as ininterruptas notícias da guerra de Israel contra o Hamas, no Oriente Médio, os últimos 13 dias têm sido ainda mais difíceis para a comunidade judaica espalhada pelo mundo. Em Minas Gerais, onde ela reúne cerca de 3.500 pessoas, o presidente da Federação Israelita estadual (Fisemg), Beny Cohen, relata momentos de choque e preocupação — não somente com a segurança da população em Israel, que inclui sua própria filha, mas com as consequências de uma onda de antissemitismo que ele diz ter sido agravada pelo conflito.

“Temos percebido, nas redes sociais, que, quando alguém posta algo com relação a Israel, um 'Não ao terrorismo', alguma coisa assim, os comentários nas publicações têm os mais diversos horrores. Por exemplo, que 'Hitler não acabou o serviço', que 'o povo judeu tem que sofrer, ser aniquilado'. São coisas que nos chocam. Jamais poderíamos imaginar que, em um país como o Brasil, pudéssemos ter, ainda, pessoas que compartilhassem esse tipo de preconceito”, descreve. 

Cohen sublinha que o povo palestino também é vítima das ações do Hamas, como o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, declarou nesta semana. A existência de um Estado palestino, diz o brasileiro, é legítima, mas deve respeitar também a existência de Israel. “Nós queremos a paz, a criação de dois Estados soberanos, que se respeitem e que vivam em paz. Este é o sonho de todo o povo judeu”, pontua. 

Confira, abaixo, a entrevista completa de Beny Cohen, presidente da Federação Israelita do Estado de Minas, editada para melhor compreensão. 

Como o senhor e sua família têm acompanhado as notícias? Acompanham muito de perto ou estão contendo o fluxo de informações para se preservar emocionalmente?

No primeiro momento, minha família e a comunidade sentiram o choque do inesperado. Foi uma tensão absoluta, sem saber o que estava acontecendo, vendo as notícias, e a cada hora chegavam notícias pela imprensa local e por amigos e parentes que moram em Israel, da tragédia que o terrorismo causou. Foi uma  coisa completamente inesperada, um choque para a comunidade judaica no mundo inteiro e, principalmente, para Israel. Foi um ambiente extremamente tenso e chocante. E, com o passar do tempo, fomos tentando assimilar as informações do que estávamos recebendo, com muitas informações de parentes que moram lá, tentando nos atualizar sobre os mortos, a tragédia, os feridos e a captura dos terroristas que ainda estavam em território isralense. 

Depois, houve um momento em que grande parte da comunidade teve que dar uma parada no noticiário, porque a tensão estava grande demais, muita pressão. Como sou presidente da Federação Israelita, tenho que ficar sempre informado, então sempre estou vendo noticiário. Há dois, três dias, eu tenho me policiado um pouco mais para me preservar, porque as pessoas da comunidade inteira de Minas Gerais me procuram, querem saber informações, então a cabeça fica a mil por hora. Os próximos dias serão bastante preocupantes e desafiadores. 

Imagino que o senhor tenha muitos parentes e amigos em Israel. Como eles estão? 

A minha filha está lá, ela vai fazer 20 anos agora em novembro. Ela foi fazer um programa de liderança de um ano em Israel. Foi em fevereiro, e a previsão é voltar no final de janeiro. Graças a Deus etá tudo bem. No dia do atentado terrorista, ela estava próxima ao local, a meia hora de lá, mas em lugar seguro. Agora, ela foi para Jerusalém, em um lugar mais seguro ainda. Não quis voltar. Nós perguntamos se ela queria, e ela disse que em hipótese alguma. Em nenhum momento ela fraquejou querendo voltar. Nos emocionou bastante uma fala dela: ela nos falou "Nestas horas, a gente não solta a mão, a gente segura". Isso mostra que é uma menina que está indo para o caminho certo, o caminho de companheirismo, de compaixão, de empatia.

Ela está fazendo trabalhos voluntários. Claro, ela não tem treinamento, não vai para o exército, absolutamente nada disso. Mas está fazendo trabalhos voluntários, limpando bunkers, indo a casa de idosos cuidar deles enquanto enfermeiros especializados vão para o front de batalha, cuida de crianças, prepara refeições e lanches para ser enviados para bases. Há uma série de trabalhos voluntários que civis que não vão para o campo de batalha podem fazer. Eu acho que é um crescimento muito grande e nos orgulhou bastante.

Imagino que uma parte de vocês quisesse que ela voltasse logo para ficar totalmente em segurança. 

Muitos que estão nesse programa realmente voltaram. Mas, no meu caso, da minha esposa e de mais alguns casais de amigos, em nenhum momento fraquejamos com relação a isso, porque é uma decisão dela também.

A imprensa acompanha muitas imagens chocantes da guerra, o que o governo de Israel compartilha e o que se vê nos veículos internacionais. Imagino que seja ainda mais difícil para a comunidade judaica. O que mais o chocou sobre a guerra até agora?

Duas coisas tem chocado bastante a comunidade. Primeiro, a violência dos vídeos, a violência e o ódio com que os terroristas agiram a sangue frio. Crianças decapitadas, mulheres estupradas, a forma de violência como foi tudo foi feito, jogando bombas em bunkers com mais de 200 pessoas, metralhando sem mais nem menos civis e famílias chegando em kibutz. É uma coisa que nós, brasileiros, nem em sonho conseguimos imaginar. E olha que nós estamos falando de um país muito violento, que é o Brasil. Mas, com essa violência, desse nível, nem sonhamos. Isto está longe da nossa imaginação.

A outra coisa que tem nos chocado muito e nos deixado bastante preocupados é essa onda de antissemitismo que está aflorando no nosso país e no mundo. Uma grande parte das pessoas está politizando o conflito. Temos percebido, nas redes sociais, que, quando alguém posta algo com relação a Israel, um "Não ao terrorismo", alguma coisa assim, os comentários nas publicações têm os mais diversos horrores. Por exemplo, que "Hitler não acabou o serviço", que "o povo judeu tem que sofrer, ser aniquilado". São coisas que nos chocam. Jamais poderíamos imaginar que, em um país como o Brasil, pudéssemos ter, ainda, pessoas que compartilhassem esse tipo de preconceito. Estamos muito preocupados com isso.

Aqui em Belo Horizonte, existe alguma convivência entre a comunidade judaica e a comunidade palestina?

Não temos convivência com a comunidade palestina aqui. A comunidade árabe que há em Belo Horizonte é a comunidade árabe cristã, que foi expulsa dos países de origem por ser cristã, exatamente, sofrendo perseguição dos radicais muçulmanos. O relacionamento da comunidade judaica com a comunidade árabe é excepcional. Temos vários amigos e somos muito próximos. Agora, com a comunidade muçulmana, nós não temos relacionamento, nem positivo nem negativo. Não nos conhecemos e nos respeitamos.

Nesta semana, o presidente da Autoridade Palestina disse que as ações do Hamas não representam o povo palestino. Na sua perspectiva, até que ponto os palestinos também são vítimas do Hamas?

Tenho certeza absoluta de que as maiores vítimas do Hamas são o povo de Israel e o povo palestino. Tenho certeza de que quem representa o povo palestino é a Autoridade Palestina, que infelizmente perdeu o poder em Gaza porque o Hamas tomou. Todos os acordos de paz são boicotados pelo Hamas, porque não interessa a ele ter paz com Israel. O objetivo dele é a destruição completa de Israel.

Nós somos completamente a favor de dois Estados, que se respeitem, que se ajudem, que sejam prósperos. Não temos a menor dúvida da importância de que isso aconteça, desde que Israel seja respeitada, com a sua soberania, sua defesa, sua possibilidade de viver, sua existência. A partir do momento em que um grupo terrorista se coloca como representante da morte, da destruição de outro povo, não tem como prosperar.

Ao mesmo tempo, tem havido muitos críticos das ações de Israel. Há quem fale que estaria havendo excesso nas ações do Estado israelense. Até que ponto o senhor avalia que a sociedade civil palestina tem sido vítima dessas ações, sejam elas desproporcionais ou não?

É difícil falar em proporcionalidade nesta hora. O que seria proporcional? É muito difícil falar em proporcionalidade quando se está em estado de guerra. Israel foi invadida e tem todo o direito de se defender, não só direito, como dever de defender a sua população. Ainda mais com a barbárie da maneira como foi feita. Claro que, infelizmente, os civis estão sendo vítimas também. Por isso, Israel, quando bombardeia, avisa para evacuarem, descerem para o sul da Faixa de Gaza, para tentar ter o menor número possível de vítimas. Mas o Hamas não deixa, ameaça os que estão se deslocando, porque quer colocar a população civil como escudo. Enquanto Israel defende sua população e a coloca em bunkers para protegê-la, o Hamas a coloca exatamente em frente a edifícios. 

As pessoas só cobram proporcionalidade quando se trata de Israel. Ninguém cobra proporcionalidade em nenhum outro conflito do mundo. Agora, quando o assunto são Israel e sua autodefesa, todo mundo questiona a proporcionalidade. Na guerra, temos que eliminar o inimigo que quer nos destruir, e que demonstrou claramente, nesses atos terroristas, que o desejo deles é a destruição do Estado de Israel e do povo judeu.

Em Belo Horizonte, a comunidade judaica recebeu algum tipo de ameaça ou se sente segura?

Não recebemos nenhum tipo de ameaça. Quero agradecer muito às forças de segurança pública, que estão nos assessorando e têm feito bastante policiamento nas nossas entidades, o que partiu das próprias polícias. Aumentaram muito o policiamento. 

Em BH, o senhor sente mais acolhimento durante a guerra ou, pelo contrário, que paira algum desrespeito?

Temos uma grande parte da população que nos apoia, muitas autoridades, políticos, formadores de opinião, pessoas comuns. Mas uma parte considerável tem nos hostilizado bastante, hostilizado membros de nossa comunidade nas redes sociais. São coisas assustadoras. Nós não estamos falando de direita e esquerda, de Lula e Bolsonaro, de nada disso. Nós estamos falando de humanidade.

As pessoas estão sempre dispostas, por exemplo, a acusar Israel de desproporcionalidade e ilegitimidade de se defender. Mas, quando Israel foi atacada, no dia 7 de outubro, foram incapazes de mostrar solidariedade ao povo israelense.

Neste momento em que está ocorrendo a iminência de uma invasão por terra por parte de Israel, a população sabe ser bastante hostil com o povo israelense. Mas, quando o povo israelense está sendo atacado e é vítima de um ato terrorista brutal, essas pessoas se calam. 

Membros de nossa comunidade têm reportado muita preocupação com essa volta do antissemitismo e com a forma agressiva com que as pessoas comentam nas redes sociais

Como senhor tem avaliado ações do governo do Brasil, como o resgate dos brasileiros em Israel? E os posicionamentos do governo?

Com relação aos resgates, acho que ele está agindo de forma bastante eficiente, de modo que os cidadãos brasileiros que quiserem voltar se sintam tranquilos. O que nos deixa bastante chateados é a omissão do governo em declarar o Hamas como grupo terrorista.

É um grupo que tem em seu estatuto a destruição de outro povo e pratica as barbáries que praticou no dia 7 de outubro. Ainda assim, grande parte da classe política e do governo ficam temerários em declará-lo terrorista. Não consigo entender o significado da palavra "terrorista” para essas pessoas.

Nesta sexta-feira, O Tempo publicará uma entrevista com um representante da Autoridade Palestina no Brasil 

Notícias exclusivas e ilimitadas

O TEMPO reforça o compromisso com o jornalismo profissional e de qualidade.

Nossa redação produz diariamente informação responsável e que você pode confiar. Fique bem informado!