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Itália captura ursa que matou alpinista e não sabe o que fazer com o animal

Autoridades querem sacrificar bicho, mas associações de proteção são contra medida; alpinista e corredor italiano, Andrea Papi, foi atacado pelo animal enquanto fazia trilha no início deste mês

Por Agência
Publicado em 20 de abril de 2023 | 18:10
 
 
 

Autoridades italianas capturaram nessa terça-feira (18) a ursa que matou, no início do mês, o alpinista e corredor Andrea Papi, 26, em uma área montanhosa na região de Trentino, no norte da Itália. Com 17 anos e 150 kg, a ursa conhecida como JJ4 pode ser sacrificada, o que tem motivado intensos debates na Itália.

O governador da província, Maurizio Fugatti, quer que ela seja morta, mas ao menos 80 associações já se manifestaram contra o que consideram vingança. O destino do bicho agora está nas mãos da Justiça.

Segundo o grupo pró-animais Animalisti Italiani, o governo não fez o suficiente para minimizar as chances de interações perigosas entre ursos e humanos. "A coabitação com os grandes predadores que desde sempre povoaram o nosso país não só é possível, com as devidas precauções, como também necessária."

Já o governador declarou que a captura lhe trazia "satisfação misturada com amargura". A ordem de apreensão emitida por ele incluía a morte por eutanásia do animal, prevista por lei. Mas essa diretiva está suspensa, aguardando uma decisão de um tribunal local, que vai se reunir em 11 de maio.

JJ4 foi capturada com uma armadilha na região de Val Melédrio, a pouco mais de 10 km de Caldes, onde o alpinista foi morto. A ursa estava com seus três filhotes de dois anos de idade, que, após serem considerados autossuficientes pelo departamento florestal de Trento, foram deixados para trás.

Nascida em 2006, JJ4 é filha de Jurka e José, dois dos dez animais que foram importados da Eslovênia entre 1999 e 2002, quando a população de urso-pardos da região italiana corria o risco de desaparecer.

Nos anos 1990, havia apenas três ou quatro remanescentes. O projeto Life Ursus então providenciou as transferências e, na contagem oficial da província de Trentino em 2021, a população de ursos estava entre 73 e 92 indivíduos. O ataque a Andrea Papi foi o oitavo registrado na província desde 2009, mas é a primeira morte nos "tempos modernos", segundo a agência de notícias italiana Ansa. São as diretrizes do programa Life Ursus que indicam que um urso responsável pela morte de uma pessoa deve ser abatido.

A identificação de JJ4 como autora da morte de Papi foi feita por DNA --o corpo do alpinista foi encontrado no mato com feridas profundas no pescoço, braços e estômago. A investigação apontou que ele tentou se defender com bastões de caminhada e que os filhotes estavam presentes durante o ataque.

O governador Fugatti já havia tentado sacrificar JJ4 em 2020, após o ataque a um pai e a seu filho adulto em junho daquele ano. "Gostaríamos de ter dado essa notícia em 2020, mas o sacrifício e a captura foram barrados pela Justiça", disse. Ele também está atrás de MJ5, 18, fêmea que atacou um homem em março.

Do lado dos grupos pró-animais está a família de Papi. "Sou contra o sacrifício, mas eles devem colocar a mão na consciência, porque se isso acontecesse com um filho deles não sei o que fariam. Só quero justiça para o meu filho", disse Franca Ghirardini, sobre as autoridades de Trentino, a quem atribui a culpa.

Na TV, o pai de Andrea, Carlo Papi, disse: "Ele só saiu para passear, como todos os meninos aqui fazem, como todos os cidadãos, os turistas. Você deveria vir aqui no verão para ver quantos milhares de pessoas estão lá na floresta. Não sei onde colocam as placas [de que há ursos na região], não vimos nenhuma".

Ainda sobre a família, um programa da TV italiana encontrou um jornal de 1911 com uma reportagem sobre os caçadores de ursos de Trentino, vistos à época como heróis.

O caçador mais competente, de longe, era Domenico Camponi da Carciato, que havia matado até então 49 ursos. O segundo lugar vinha muito atrás, com 18 animais abatidos, e os seguintes com apenas nove, cinco e três. Pois o recordista Domenico, que ironia, foi o bisavô de Andrea Papi. (IVAN FINOTTI/FOLHAPRESS)

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