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'Pague pelo seu débito': Debate sobre perdas e danos na COP27 chega à reta final

Há uma expectativa de que algum acordo seja feito no Egito sobre recursos a serem destinados aos países mais afetados pelo aquecimento global

Por Cinthya Oliveira
Publicado em 14 de novembro de 2022 | 18:28
 
 
 

As cerca de 200 delegações presentes na 27ª conferência do clima da Organização das Nações Unidas, a COP 27, têm até sexta-feira para chegar a um acordo urgente sobre quem vai pagar a conta dos prejuízos provocados pelo aquecimento global, especialmente em países mais pobres. O debate no Egito é intenso, ainda não é possível saber se haverá um caminho consensual, mas especialistas esperam que algum acordo possa ser firmado sobre o futuro do fundo climático elaborado em Paris, há sete anos. 

Presente na conferência para acompanhar os debates, o arquiteto e urbanista Sergio Myssior explica que os principais temas no momento são mitigação, adaptação, financiamento climático e colaboração entre os países - necessários para que não haja um aumento superior a 1,5°C na temperatura do planeta. Segundo ele, os países ricos não cumpriram integralmente a promessa de mobilizar US$ 100 bilhões por ano até 2020 no financiamento climático, o que tem gerado forte desconfiança e subsidia a orientação de implementação efetiva das metas estabelecidas.

“Me parece que a COP27, que tem como um dos principais propósitos viabilizar ações efetivas para a implementação da agenda do clima, enfrenta uma questão fundamental: os países ricos irão se comprometer com o incremento substantivo dos recursos e investimentos para o financiamento climático e para indenizar os países pobres e em desenvolvimento?”, questiona o especialista, lembrando que a população de nações menos ricas já sofrem com os mais diferentes impactos, como deslizamentos, inundações, enchentes, fragilidades na área de saneamento, piora na qualidade do ar, vetores de doenças, entre outros. 

Durante os painéis, os representantes diplomáticos têm se esforçado para mostrar o que tem sido feito para cumprir o acordo para 50% de redução até 2030 e alcançar emissões líquidas neutras até 2050. Para se destacarem no cenário internacional, países mostram seus planos para uma transição na produção energética - reduzindo o uso de combustíveis fósseis e ampliando as matrizes energéticas limpas. 

Ou seja, a urgência na redução dos Gases de Efeito Estufa (GEE) parece ser consensual no âmbito diplomático, mas ainda resta saber o que fazer em relação aos países mais prejudicados - como Bangladesh, onde inundações neste ano deixaram mais de 120 mortos e pelo menos 20 mil pessoas desabrigadas. 

Há anos se discute o papel que as nações mais industrializadas têm, historicamente, na emissão de gases que provocam o aquecimento global e como seria desigual impor os mesmos deveres ambientais a todos os países. 

Como chegar a quem mais precisa

Parceiro de Myssior na empresa Myr Projetos Sustentáveis, o doutor em ecologia Thiago Metzker enxerga um avanço nas negociações referentes à pauta do financiamento dos países mais prejudicados, chamada de “perdas e danos”. “Na primeira semana, houve apresentações dos países sobre as perdas e danos, com sua vontade de ajudar ou receber recursos do fundo climático. Contudo, existe uma certa restrição para que esse recurso chegue na ponta, chegue realmente até as pessoas que mais precisam”, disse o ecólogo. 

Para Metzker, para que o problema seja solucionado de forma urgente e eficiente, é preciso que o debate não fique apenas no âmbito dos países, mas também com a colaboração da sociedade civil. 

Por isso, além das nações que compõem a ONU, estiveram presentes na conferência Estados e municípios de diferentes partes do mundo - Minas Gerais, por exemplo, esteve presente para falar sobre as ações de mitigação implementadas nos últimos anos. 

Segundo Metzker, a discussão “deveria estar menos no âmbito geopolítico e mais no âmbito didático, científico e materializado nas decisões”. “Entidades da sociedade civil e povos indígenas deveriam ter mais vozes e poder de voto para influenciar nas decisões diplomáticas”, diz o especialista. 

Brasil como protagonista

Sergio Myssior e Thiago Metzker acreditam que o Brasil deve voltar a desempenhar papel de protagonista no debate climático já a partir da COP27, que vai contar com a presença do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ele embarcou para o Egito nesta segunda-feira (14) e deve participar de atos públicos na conferência na quarta-feira (16)

“Há uma expectativa que as falas sobre eliminação do desmatamento ilegal na Amazônia e em outros biomas brasileiros criem um clima mais favorável para que decisões de outros países sejam tomadas na COP27”, opinou Metzker. 

Myssior lembra que existe a possibilidade de o Brasil sediar a COP30 em 2025. “O Brasil tem um potencial gigante de se beneficiar da agenda do clima, o que pode trazer dividendos não só de recursos financeiros, mas também recursos tecnológicos e parcerias”, afirmou.

 

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