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Peru 'recupera estradas' e violência dos protestos 'diminui'

A presidente Dina Boluarte já anunciou que seguirá firme no cargo e exigiu que o Congresso acelere a aprovação de uma antecipação das eleições gerais

Por Agências
Publicado em 19 de dezembro de 2022 | 12:26
 
 
 

As autoridades peruanas esperavam no domingo que os violentos protestos após a destituição do presidente Pedro Castillo começassem a diminuir, enquanto o papa Francisco pediu diálogo e o governo dos Estados Unidos reformas para proteger a democracia.

"As medidas que tomamos estão funcionando, ou seja, as estradas estão sendo recuperadas, os aeroportos estão sendo habilitados e a violência dos manifestantes nas ruas também está reduzindo", disse o primeiro-ministro, Pedro Angulo, ao canal estatal TV Peru.

Os protestos - mais intensos no sul andino, região atingida pela pobreza, desigualdade e com reivindicações sociais adiadas - exigem a libertação de Castillo, preso e investigado por rebelião, após sua fracassada tentativa de autogolpe.

Também reivindicam a renúncia de sua sucessora, Dina Boluarte, o fechamento do Parlamento e eleições gerais imediatas.

Boluarte já anunciou que seguirá "firme" no cargo e exigiu que o Congresso acelere a aprovação de uma antecipação das eleições gerais, uma reivindicação apoiada por 83% dos cidadãos e que poderia atenuar a crise.

O Parlamento deve votar novamente nesta terça-feira, 20 de dezembro, o projeto para adiantar as eleições de 2026 para 2023, que na semana passada não conseguiu os votos necessários.

O conflito acontece porque um setor do Congresso, sobretudo o que apoia Castillo, quer incluir a convocação de uma Assembleia Constituinte para redigir uma nova Carta Magna que substitua a de 1993, uma possibilidade que não tem consenso.

Asilo para família Castillo

As manifestações começaram depois que Castillo, um professor de esquerda da área rural do país e de origem modesta, foi destituído pelo Congresso.

Em 7 de dezembro, antes de ser submetido a um novo julgamento político e destituído, Castillo tentou fechar o Parlamento, intervir nos poderes públicos e governar por decreto.

Pedro Castillo justificou a decisão alegando uma obstrução do Congresso para governar. Também afirmou que era tratado com racismo.

Ele não conseguiu apoio institucional e foi detido quando tentava chegar à embaixada mexicana para pedir asilo.

A justiça determinou sua prisão preventiva até junho de 2024, para uma investigação por rebelião.

No domingo, a presidente Boluarte a anunciou que o México concedeu asilo para a esposa e os filhos de Castillo, mas não informou se a família já deixou o país.

A família de Castillo é formada pela esposa, os dois filhos e a irmã mais nova de sua esposa, que também foi criada como filha. A presidente disse que não tem mais detalhes e falou de forma geral sobre um asilo concedido à ex-primeira-dama e aos filhos dela.

Lilia Paredes, esposa de Castillo, é investigada pelo Ministério Público peruano como possível coordenadora de uma suposta organização criminosa que envolveria o marido. 

A presidente Boluarte explicou que a investigação não impediria a concessão de asilo.

20 mortes

A repressão das manifestações provocou 20 mortes, segundo o boletim mais recente da Defensoria do Povo.

Também foram registrados 646 feridos (356 civis e 290 policiais) em confrontos entre manifestantes e as forças de segurança. 

No domingo ainda foram registrados alguns conflitos entre manifestantes e policiais no noroeste do país.

"Instamos às instituições democráticas do Peru que realizem as reformas necessárias durante este período difícil", disse o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, no Twitter neste domingo, sobre uma conversa que teve com Boluarte na sexta-feira.

Blinken afirmou que Washington continuará apoiando a Presidência peruana. Enquanto isso, em seu Angelus deste domingo, o papa Francisco rezou pelo Peru para que "a violência cesse" e "se percorra o caminho do diálogo para superar a crise política e social".

Boluarte, há 11 dias no cargo, anunciou na noite de domingo, durante uma entrevista para o programa Cuarto Poder, que haverá mudanças em seu gabinete a partir de terça-feira, a começar pelo primeiro-ministro.

A presidente afirmou que dará preferência a nomes com mais experiência política que técnica para enfrentar melhor a crise.

Investigações

No domingo, representantes da Defensoria peruana se coordenaram em Aguaytia, Ucayali (noroeste, selva peruana), com autoridades para promover o diálogo com os manifestantes, onde confrontos deixaram 5 civis e 6 policiais feridos.

Em alguns casos, como em Ayacucho (sul), as mortes da última sexta-feira foram resultado de confrontos com militares, autorizados a controlar a segurança interna no âmbito do estado de emergência.

Na ocasião, a Defensoria solicitou investigação criminal, devido a denúncias de disparos diretos contra o corpo por militares. Entre as vítimas, havia menores.

No domingo, no entanto, a presidente Boluarte disse que "embora o Ministério Público tenha atuado", ela também conversou com o comandante das Forças Armadas para que estes casos sejam investigados na jurisdição militar.

Familiares de alguns dos que morreram em Ayacucho carregaram no sábado seus caixões em uma praça em procissão, com pedidos de punição aos responsáveis pela violência.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos disse neste domingo que "reconhece a abertura para a construção de canais de diálogo como forma de abordar o conflito social" e anunciou uma visita ao Peru na terça e quarta-feira.

- "Bom caminho" -As manifestações produziram no início da semana passada o bloqueio de uma centena de vias e vários aeroportos, em alguns casos com danos por vandalismo.

No entanto, desde sexta-feira, estes locais foram desbloqueados após a intervenção de policiais e militares.

"Acredito que estamos em um bom caminho, como já apontou a presidente, as medidas que foram tomadas estão ajudando a diminuir o conflito", observou o ministro da Economia, Alex Contreras, primeiro-ministro, entrevistado pela Radio RPP.

Ele explicou que vários ministros viajaram para as zonas de conflito "para promover o diálogo e chegar a consensos".

A ministra dos Transportes, Paola Lazarte, disse que as operações aeroportuárias serão retomadas nesta segunda-feira em Juliaca (sudeste) e na terça-feira em Ayacucho. Na sexta-feira, o aeroporto de Cusco retomou as atividades. O mesmo deve acontecer durante a semana em Arequipa (sul).

A cidadela inca de Machu Picchu, em Cusco, de onde foram retirados no sábado 200 turistas presos devido ao fechamento de estradas, permanecia fechada desde a semana passada "até segunda ordem", informou o Ministério da Cultura.

(AFP)
                

 

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