Perigo constante

Ucranianos que ficaram no país vivem ‘normalidade’ em meio a risco de morte

Rotina em cidades mais distantes do centro dos conflitos tenta retomar rotina, interrompida pela violência do embate com os russos

Por Gabriel Rodrigues
Publicado em 24 de fevereiro de 2023 | 06:00
 
 
 

Pelo menos 7.000 civis mortos, fora outras dezenas de milhares de soldados, apagões que deixam cidades inteiras no escuro e centenas de prédios públicos e residenciais postos ao chão. Com esse cenário de horror, milhões de ucranianos que não se juntaram aos oito milhões de cidadãos que deixaram o país no início da guerra contra a Rússia vivem o dia a dia entre o caos e um novo tipo de normalidade. A Ucrânia não foi esvaziada pela guerra e, passado um ano desde que o conflito começou, ainda tem escritórios, bares e cinema — que convivem, em algumas regiões, com a ameaça de sirenes de alerta anti-bombas, que podem soar a qualquer instante.

“De certo momento da guerra em diante, a população tentou viver uma vida normal, se é que se pode chamar assim, voltando a trabalhar, estudar e viver o mais normalmente possível, principalmente nas zonas um pouco mais longe dos grandes conflitos”, explica o presidente da Sociedade Ucraniana do Brasil , Felipe Oresten.

“Ainda é bastante complicado, porque a capital, Kiev, sofre bombardeios. As pessoas estão no meio do trabalho, têm que correr para o abrigo antibombas, ficar lá por uma hora e voltar ao trabalho. Virou o cotidiano delas. É sempre uma apreensão para um pai deixar seu filho na escola sabendo que professores e professoras terão que levar as crianças para um abrigo. Eles querem sair disso, voltar ao normal de sempre, sem guerra e os perigos de morrer. É um risco de morte de que não tem como se salvar”, completa.

Como a Ucrânia resiste à Rússia? Ajuda externa e união do povo explicam cenário

Desde o início da guerra na Ucrânia, há um ano, centenas de milhares de russos e ucranianos foram mortos em combate. Além dessa multidão de soldados que perderam a vida na batalha, cerca de 7.000 civis morreram — quatro centenas deles crianças e a maior parte vítimas de explosivos, segundo o Escritório do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Mesmo sem poderio nuclear, com um exército menor que a metade do russo e sendo atacados diretamente em suas cidades, os ucranianos mantêm resistência contra o avanço da Rússia e não dão sinais de que se renderão.

Os ucranianos recebem ajuda econômica e armamentista de países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Só no último mês, os EUA anunciaram investimentos de R$ 3 bilhões na segurança do país europeu e outros membros da Otan também estão enviando tanques de guerra, aviões e outros armamentos pesados. Por outro lado, o exército russo tem mais de um milhão de pessoas e, mesmo combalido por sanções, o país mantém sua resiliência e sequer fala em recuar.

Para além dos fatores práticos envolvidos na guerra, como o número de armamentos, uma história de décadas de dominação reúne os ucranianos no objetivo de resistir aos russos, pondera o presidente da Sociedade Ucraniana do Brasil , Felipe Oresten. “Muitos falaram que a resistência ucraniana não duraria e que a deposição do atual governo levaria 15, 30 dias. Isso não aconteceu. Isso se dá por essa força que principalmente o presidente teve durante esse ano inteiro, dizendo que não sairia, que não queria ajuda para fugir e lutaria com seu país. Esse sentimento de união do povo ucraniano não é uma característica atual, mas histórica. É o que faz a Ucrânia existir até hoje”, diz.

Os ucranianos só alcançaram a independência em 1991, com o colapso da União Soviética. Durante os 30 anos seguintes, foram pressionados pela influência russa — desde 2014 os territórios Donetsk e Lugansk, em disputa na guerra, são ocupados por separatistas pró-Rússia. Noventa anos antes disso, os ucranianos sofreram, nas mãos da União Soviética, uma fome que matou milhões de pessoas, período conhecido como Holodomor.

Agora, a crise atual não tem data para terminar e o fim da guerra está invisível no horizonte, avalia o professor de relações internacionais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Dawisson Belém Lopes. “Ainda não parece haver ânimo das partes para uma mesa de negociação de paz. Nesse sentido, como os atores já se engajaram muito, se mobilizaram muito, não só a Rússia e a Ucrânia, mas também os diversos países que se envolveram nesse conflito, ainda não está no horizonte a cessação das hostilidades”, reflete.

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