Eleições

Vai ter segundo turno: Massa surpreende e larga na frente de Milei na Argentina

Mesmo com a grande expectativa e o caráter histórico da disputa, a participação foi a mais baixa em 40 anos

Por Agência
Publicado em 22 de outubro de 2023 | 22:12
 
 
 

O peronista Sergio Massa surpreendeu e largou na frente do ultraliberal Javier Milei na disputa pela Presidência da Argentina. Com mais de 80% das urnas apuradas, o atual ministro da Economia do país acumula 36,19% dos votos válidos, contra 30,31% do libertário, o que leva os dois a um segundo turno em 19 de novembro.

A macrista Patricia Bullrich registra 24% dos eleitores até aqui. Para ganhar no primeiro turno, um candidato precisa angariar mais de 45% dos votantes, ou 40% com dez pontos percentuais de diferença para o segundo colocado, o que até agora nenhum deles conseguiu, frustrando as expectativas dos libertários.

O eleitor argentino estará diante de dois modelos de país essencialmente diferentes: o primeiro com certo grau de continuidade pela esquerda, apesar de Massa estar mais ao centro do que o governo do presidente Alberto Fernández, e o segundo de profunda ruptura liberal de direita.

Massa carrega o feito de disparar na frente mesmo gerindo sucessivas corridas do dólar e uma inflação de 138% ao ano. Para resolver a crise, ele aposta nos frutos de investimentos feitos nos setores energético, mineiro e agropecuário, invertendo a balança comercial e obtendo mais dólares com exportações.

Ele foi o terceiro ministro da Economia nomeado por Fernández, em julho de 2022. Antes disso, foi presidente da Câmara dos Deputados por três anos e prefeito da cidade de Tigre, vizinha a Buenos Aires, por outros seis. Também ocupou o cargo de chefe de gabinete de Cristina Kirchner em 2008 e 2009.

Mesmo fazendo parte de um governo reprovado por 8 em cada 10 argentinos, Massa é visto como viável por não ser um peronista tradicional, estar mais próximo de empresários e ter contido um cenário turbulento quando assumiu. Ele também tem liderado a renegociação da dívida bilionária que o país tem com o FMI (Fundo Monetário Internacional).

Do outro lado, Milei foi o candidato mais votado nas primárias de agosto e tem como promessas centrais dolarizar a economia argentina —após um período de livre concorrência entre as moedas—, acabar com o Banco Central e diminuir drasticamente os gastos do Estado num país habituado há mais de 20 anos com subsídios.

Ele trilhou sua carreira como economista no mundo acadêmico, mas ganhou fama bradando suas opiniões radicais e "anticasta" em programas de TV. Chegou a deputado federal em 2021 e então a presidenciável, atraindo principalmente os votos de protesto ou desesperança em relação às duas maiores forças políticas que geriram o país nas últimas duas décadas.

Milei também costuma usar sua forte presença nas redes sociais, um dos pontos que o faz ser comparado ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no Brasil. Ambos se aproximam ao criticar o comunismo, defender o porte de armas e negar as mudanças climáticas, por exemplo, mas se diferenciam em temas como família e religião.

O analista político Gustavo Córdoba, diretor da empresa de pesquisas Zurban Córdoba, afirma que Massa chega ao segundo turno graças à ajuda de governadores e militantes peronistas espalhados pelo país. "A territorialidade ainda tem um valor importante na Argentina", diz ele, que vê os resultados do primeiro turno com cautela.

"Todo segundo turno é uma eleição completamente diferente. Em 2015, Mauricio Macri [PRO] ficou em segundo, mas terminou triunfando por três pontos", afirma. "Agora é preciso ver como se reconfigura o cenário da representação política do país, o que vai acontecer com o Juntos pela Mudança e os eleitores de Bullrich."

No momento, porém, a grande questão dos argentinos é saber o que vai acontecer com suas economias em pesos nesta segunda (23). O temor é que o dólar, e portanto os preços, disparem com os resultados, o que é um movimento comum após eleições no país, mas se intensificou diante de um candidato que propõe acabar com a moeda local.

Eles foram às urnas neste domingo depois de meses de uma aflitiva espera vendo a inflação subir, com parte das vendas, compras e importações paralisadas, enquanto o governo tenta segurar as pontas até que se defina quem será presidente a partir de 10 de dezembro.

Mesmo com a grande expectativa e o caráter histórico da disputa, a participação foi a mais baixa em 40 anos. Apenas 74% dos eleitores compareceram às urnas, contra 80% no primeiro turno de 2019. O número, porém, foi mais alto do que nas primárias de agosto, quando o índice ficou em 70%.

A votação se deu de forma tranquila e com menos tensão do que nas eleições primárias. Naquela ocasião, uma regra que impôs o voto eletrônico para candidatos ao governo da cidade de Buenos Aires causou longas filas e brigas em diversos locais.

O voto de Milei em uma universidade de Buenos Aires, porém, teve empurra-empurra, pessoas passando mal e bate-boca com jornalistas, além de cantos de torcida e "Parabéns para Você", já que o candidato completa 53 anos no mesmo dia das eleições.

A Argentina atravessa sua terceira grande crise econômica recente, com um déficit fiscal insistente, alta dívida externa e falta de reservas da moeda americana nos cofres públicos, o que faz a roda da inflação girar e engrossa as filas da pobreza. Quatro em cada dez não conseguem pagar as despesas básicas, sendo que um desses é considerado indigente e sequer pode bancar a alimentação.

Até agora, avaliam analistas, um eventual caos social tem sido contido por uma taxa de desemprego baixa, por um consumo e atividade econômica que não vão mal —apesar de começarem a dar sinais de esgotamento— e pela ligação histórica do governo atual com a maioria dos sindicatos e movimentos sociais. Há temor, porém, de que a situação saia do controle de alguma forma a partir daqui.

Para o Brasil, que tem o vizinho como terceiro maior parceiro comercial, está em jogo uma relação de proximidade com Lula, embora seja improvável que Milei corte totalmente o vínculo com seu principal importador e exportador. A equipe do ultraliberal defende rever o Mercosul e se opõe à entrada no Brics, mas diz que o setor privado pode "comercializar com quem quiser". (Com Folha)

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