saúde e medicina

Veja detalhes do novo tratamento para obesidade que simula efeitos da bariátrica

Descoberta pode ser um potencial tratamento para redução do peso sem as restrições de outros procedimentos atualmente disponíveis

Por Agência
Publicado em 29 de março de 2023 | 10:33
 
 
 

Um novo tratamento para obesidade promete perda de peso sem a necessidade de fazer uma cirurgia bariátrica e sem os efeitos colaterais associados a outras drogas para emagrecimento, como enjoos e náuseas. Além disso, a droga levou à redução de cerca de 80% do apetite em ratos testados em laboratório e diminuiu, em média, 12% do peso em 16 dias de tratamento. Com isso, a descoberta pode ser um potencial tratamento para obesidade e redução do peso sem as restrições de outros procedimentos atualmente disponíveis.

O experimento com a molécula, batizada de GEP44, foi feito em ratos obesos em laboratório e ainda precisa ser realizado e aprovado em humanos. Os resultados da pesquisa foram apresentados no encontro da Sociedade de Química Americana (ACS, na sigla em inglês) nesta quarta-feira (29).

A droga injetável mimetiza os efeitos de uma cirurgia bariátrica por atuar de forma semelhante ao GLP-1 (peptídeo do tipo glucagon 1) e o PYY (peptídeo YY). O primeiro atua reduzindo o nível de glicose no sangue ao liberar insulina na corrente sanguínea, enquanto o segundo trabalha na sensação de saciedade. Combinados, eles reduzem o apetite, por isso são moléculas-alvo para a formulação de drogas para perda de peso.

Porém, os efeitos colaterais destas substâncias podem ser mais severos, pois incluem náuseas, enjoos e vômitos. Por isso, têm uma alta taxa de desistência do tratamento. Já a molécula GEP44 simula os efeitos da cirurgia bariátrica sem a necessidade de um procedimento invasivo, afirma o pesquisador principal do estudo e professor da Universidade de Syracuse, Robert Doyle.

"Redução da quantidade de ingestão de calorias é um mecanismo que leva à perda de peso mas não só, então nós fomos atrás do mecanismo metabólico que leva a essa redução, sem ter efeitos deletérios no organismo. O que vimos foi que as mudanças produzidas por esse composto mimetizam o efeito de uma bariátrica quando há uma espécie de 'reprogramação' do sistema endócrino associado à perda de peso", afirma.

Além disso, a droga não apresentou nenhum efeito colateral. "Tivemos uma incidência baixa de náusea nos ratos em experimentos mesmo com uma dose dez vezes maior da liraglutida [substância aprovada pela Anvisa para o tratamento da obesidade]", indica o autor.

Doyle pontua que como ratos não têm a capacidade de vomitar, o tratamento foi testado também em outro modelo animal (conhecidos como shrews, em inglês), que são pequenos mamíferos insetívoros semelhantes a ratos, e que podem apresentar vômitos como sintomas.

Nestes, a droga também não provocou efeitos colaterais. Após 28 dias, os cientistas viram uma perda significativa de peso nos animais. Segundo o pesquisador, a expectativa é de iniciar os testes em humanos dentro de um período de 18 meses. A produção, escala e custos do medicamento serão comparáveis aos de outras drogas com princípios ativos semelhantes, como a liraglutida e semaglutida (presente nos medicamentos Saxenda, Wegovy e Ozempic).

Para o endocrinologista Fábio Moura, diretor da Sbem (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), a nova molécula parece promissora por atuar na classe que os médicos chamam de agonistas triplos, isto é, que agem em três receptores diferentes do GLP-1 e dos peptídeos PYY no cérebro.

"Isto significa que vai ter uma possível ampliação de eficácia sem ampliação de efeitos colaterais, mas ainda é muito cedo afirmar porque esse estudo está ainda na fase pré-clínica [quando é testado em animais em laboratório]", afirma o especialista.

De acordo com Doyle, outro potencial benefício da droga é que ela atua em receptores no cérebro para opioides como fentanil, que são altamente viciantes. "Esse foi um efeito completamente inesperado mas que pode ter efeito a longo prazo no comportamento de vício, uma vez que ele aumenta a janela de tempo que leva à procura da droga", diz o autor do estudo.

Por fim, o pesquisador afirma que não foi observado o que ele chama de "compensação", efeito comum em pessoas que passam por cirurgia bariátrica ou fazem uso de medicamentos para controle de obesidade. Nesses casos, os pacientes recuperam o peso perdido ao parar o tratamento --o chamado "efeito sanfona" ou "rebote".

"Até o momento, não vimos a compensação como efeito da droga, o que pode indicar um mecanismo de ação nos receptores cerebrais associados à saciedade e ao apetite. A próxima etapa irá focar em investigar os genes envolvidos diretamente com a ativação de neurônios que atuam na cadeia de receptores de saciedade no cérebro", finaliza Doyle. (ANA BOTTALLO/Folhapress) 

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