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Música

Aniversário de 60 anos da morte de Villa-Lobos é marcado por homenagens

Álbum, relançamento de livro e shows relembram a obra do maestro brasileiro

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Villa_Lobos
“Villa-Lobos tem um quê de universal”, enaltece o músico mineiro Dudu Barretto
PUBLICADO EM 10/11/19 - 03h00

O piscar de olhos parece acompanhar a densidade dos violinos, sopesada pela presença delicada do piano, ao passo que as cores tomam conta desse corpo que tem “vontade de voar”. Ao cantar “as asas da noite que surgem/ e correm o espaço profundo”, versos de Dora Vasconcellos para “Melodia Sentimental”, composta por Heitor Villa-Lobos (1887-1959) em 1950 como parte da obra “A Floresta do Amazonas”, Marina Cyrino, 39, sente que os seus pés já não estão no chão. “A música tem um crescendo para o agudo que, junto com o poema, nos causa a impressão de que vamos voar”, corrobora Marina. 

A cantora belo-horizontina radicada no Rio debutou em disco no mês de fevereiro com “Cores de Villa-Lobos”. “O que sempre me fascinou em Villa-Lobos é a diversidade, ele compôs música sacra, ponto de candomblé e até para a Broadway. Começamos a imaginar que essas nuances musicais poderiam ser metaforizadas por meio da pintura”, conta Marina, que, tanto no videoclipe de “Melodia Sentimental” quanto no espetáculo de lançamento do CD, na Cidade das Artes, no Rio, se cobriu de tinta, num trabalho em parceria com o artista plástico Marc Kraus. 

Além da admiração, que surgiu quando Marina conheceu, aos 13 anos, a “Ave-Maria” de Villa-Lobos no coral da igreja que frequentava, o álbum cumpriu o desejo de homenagear os 60 anos da morte do maestro, ocorrida num dia 17 de novembro. A data também será lembrada com o relançamento, em dezembro, de “Villa-Lobos e a Música Popular Brasileira: Uma Visão sem Preconceitos”, pela editora Tipografia Musical, de São Paulo. 

Fruto de uma monografia da pesquisadora e musicóloga Ermelinda Paz, 69, o livro nasceu de um concurso realizado pelo Museu Villa-Lobos em 1987 e teve uma distribuição restrita a poucos exemplares. Depois disso, levou 17 anos para ser novamente publicada com o apoio, à época, da Lei Rouanet. “Um dia, o (violonista) Turíbio Santos percebeu que só havia um único artigo do Hermínio Bello de Carvalho falando da ligação do Villa-Lobos com os músicos populares”, informa Ermelinda, que se dedicou com afinco a preencher essa lacuna. 

Em sua extensa pesquisa, ela ouviu nomes como Tom Jobim, Dorival Caymmi e Herivelto Martins e colheu depoimentos reveladores. “A (cantora) Elizeth Cardoso me disse que nunca mais iria cantar uma ária bachiana do Villa-Lobos no Teatro Municipal porque tinha sido censurada e mal compreendida”, destaca. “A Maria Lúcia Godoy, que é cantora lírica, defendeu a Elizeth e a Mindinha (apelido de Arminda Neves d’Almeida), viúva do Villa-Lobos, disse que ele estaria felicíssimo, porque queria, justamente, essa troca com a música popular”, completa Ermelinda. 

As bachianas da polêmica que envolveu Elizeth foram o ponto de partida para o show que o violonista mineiro Dudu Barretto, 30, estreou em setembro. “Villa Ba(ch)rroca: Correspondências Musicais” traça um paralelo entre as obras de Villa-Lobos e Johan Sebastian Bach (1685-1750), a partir, também, das efemérides. Em 2020, completam-se 270 anos da morte de Bach, para quem a série “Bachianas Brasileiras” foi dedicada, ao fundir música folclórica e caipira às formas do estilo barroco pré-clássico do compositor alemão. O trecho mais famoso dessa obra de Villa-Lobos é “O Trenzinho do Caipira”, que em 1975 ganhou letra do poeta Ferreira Gullar. 

“Villa-Lobos tem um quê de universal. Ele é o compositor brasileiro mais tocado ao redor do mundo porque soube valorizar a riqueza de um país grande e diversificado, a ponto de transmitir isso como valor educacional e artístico”, exalta Barretto. Nomeado superintendente de educação musical e artística pelo presidente Getúlio Vargas, Villa-Lobos introduziu, na década de 30, o canto orfeônico na grade curricular, que tinha como princípio ensinar noções básicas de música para os alunos. 

Em 1940, no estádio do Vasco da Gama, em São Januário, regeu um coro de 40 mil crianças. Apesar de todas as glórias, a violinista venezuelana Carla Rincón não vê o devido reconhecimento àquele que ela considera um “verdadeiro herói nacional”. “Villa não passou pela academia. Quando você toca suas músicas, percebe até citações aos sons produzidos pelos amoladores de faca, é incrível”, garante ela, que, em 2017, prestou tributo ao ídolo ao lado de seus companheiros do Quarteto Radamés Gnatalli. 

O músico Marco Pereira, que defendeu uma tese sobre Villa-Lobos no Departamento de Musicologia da Universidade de Paris-Sorbonne, considera que o maestro tinha uma “capacidade criativa tão intensa que não havia tempo suficiente para que ele revisasse tudo o que escreveu, gerando alguns desequilíbrios” no conjunto da obra. Villa-Lobos foi usado em trilhas de filmes de Glauber Rocha, e, nos anos 80, sua canção “Tristorosa” recebeu letra de Cacaso, em uma história inusitada. “O Cacaso me apresentou a letra como sendo do Epaminondas Villalba, o pseudônimo que o Villa-Lobos usou para assinar a partitura”, diverte-se José Joaquim Salles, codiretor do documentário “Cacaso na Corda Bamba”.

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