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Em dois meses

Em meio à pandemia, 50 mil brasileiros deixam de ser diagnosticados com câncer

Especialistas temem explosão de diagnósticos tardios e de mortes pela doença no país

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Jaqueline da Luz teve câncer de mama em 2009, começou a sentir dores recentemente e não conseguiu marcar consulta em centro de saúde
Jaqueline da Luz teve câncer de mama em 2009, começou a sentir dores recentemente e não conseguiu marcar consulta em centro de saúde
PUBLICADO EM 13/05/20 - 20h24

Nos últimos dois meses, cerca de 50 mil pessoas deixaram de ser diagnosticadas com câncer no Brasil, de acordo com uma estimativa da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP), e outras milhares tiveram consultas ou tratamentos adiados ou suspensos. A pandemia de Covid-19 tem provocado o cancelamento de procedimentos considerados não urgentes e feito pacientes deixarem de buscar os serviços de saúde, por medo de infecção pelo coronavírus. Especialistas temem um aumento de diagnósticos tardios e casos não tratados e um crescimento da mortalidade por câncer no Brasil.

"Temos feito um trabalho em vários serviços do Brasil e observado que há uma diminuição de 50% a 90% dos diagnósticos de câncer. São estimados cerca de 625 mil novos casos por ano no país, pouco mais de 50 mil por mês. Considerando dois meses com uma diminuição média de 50%, estamos falando de mais de 50 mil casos que não estão sendo diagnosticados", explica o médico patologista e presidente do Conselho Consultivo da Sociedade Brasileira de Patologia, Clóvis Klock.

Números levantados pela SBP em um serviço de referência de Belo Horizonte, não identificado pela entidade, mostram uma queda de 80% no número de biópsias realizadas: de 11 de março a 11 de maio de 2019, foram 8.402. No mesmo período deste ano, foram 1.676.

"A postergação pode levar a diagnósticos de casos em estágios já avançados, o que reduz a chance de cura do paciente ou leva à necessidade de cirurgias ou tratamentos mais agressivos. Em alguns casos, talvez não tenhamos mais tratamento a oferecer, e, no meio de uma pandemia, podemos estar criando uma epidemia de casos de câncer avançado, o que é dramático a nível de saúde pública", afirma Klock, ressaltando que alguns tipos de câncer podem matar em menos de um mês.

A faturista Jaqueline da Luz, 50, teve câncer de mama em 2009, foi curada e já não faz mais acompanhamento com oncologista, apenas controle com mastologista. Ela tentou contato com um centro de saúde da capital por telefone, mas foi informada que não deveria buscar atendimento presencial. "Estou sentindo algumas dores e tentei agendar consulta com um clínico para ver se conseguia encaminhamento para um oncologista. Por telefone, informaram que, devido à pandemia, estão pedindo para evitar o acesso de pacientes que não estejam com suspeita de Covid-19 e que não atenderiam", conta. Na sexta-feira (15), ela vai ao local fazer um preventivo e tentar novamente o encaminhamento.

Uma pesquisa realizada pela Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama) com 30 ONGs associadas, em 25 cidades do país, inclusive Belo Horizonte e Uberaba, no Triângulo Mineiro, mostra que as maiores queixas das pacientes têm sido o cancelamento de consultas (32,3%) e de cirurgias (22,6%) e a falta de agenda disponível para exames de diagnóstico (16,1%).

"Os pacientes não estão conseguindo marcar exames, biópsias e consultas e, provavelmente, veremos mais casos de câncer avançado, e o número de mortes por câncer será ainda maior", diz a presidente voluntária da Femama, Maira Caleffi. "O tempo médio para o diagnóstico de câncer já era muito. Isso tem um significado enorme na chance de cura do paciente", acrescenta, lembrando que uma auditoria realizada pelo Tribunal de Contas da União (TCU), divulgada em setembro passado, aponta que, em alguns casos, a espera pelo diagnóstico é de até 200 dias no Brasil.

Em outubro do ano passado, a Lei dos 30 dias, que assegura a pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) com suspeita de câncer o direito à realização de exames no prazo máximo de 30 dias, foi sancionada, com previsão de entrar em vigor 180 dias após a publicação, em abril deste ano, mas a regulamentação da legislação não foi realizada.

De acordo com o diretor da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica de Minas Gerais, Gustavo Lopes, mesmo antes de a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretar a pandemia, em março, as instituições de saúde públicas e privadas que tratam câncer no Estado começaram a se organizar em comitês de crise, com o objetivo de definir ações para manter o tratamento e reduzir exposição de pacientes com câncer e equipes de saúde.

"Ações como uso de telemedicina, dispensação de medicações orais por um maior período de tempo, adequações de esquemas terapêuticos, organização de espaço físico nas clinicas e nos hospitais e treinamento da equipe assistencial foram colocadas em prática. Mesmo assim, tem se visto uma redução no número de diagnósticos, uma vez que houve uma redução das cirurgias e dos procedimentos de rastreamento do câncer. Com isso, o diagnóstico inicial em pacientes assintomáticos e com doença com potencial de cura maior poderá reduzir", afirma Lopes.

"No mundo acadêmico, cresce o medo de que medidas necessárias para o controle da Covid-19 possam ter como efeito colateral o aumento da mortalidade por outras doenças, entre elas o câncer. As cirurgias oncológicas vêm acontecendo, mas, com as limitações inerentes da pandemia, os números reduziram, o que poderá levar a um represamento de pacientes sem diagnóstico e sem tratamento", completa.

Lopes ressalta a importância de os pacientes seguirem as recomendações dos médicos e não abandonarem o tratamento por conta própria. O oncologista Gilberto Castro, membro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), reforça: "O câncer é uma doença muito grave. Não se pode retardar diagnóstico e tratamento por causa da pandemia, desde que a segurança dos pacientes e da equipe seja preservada. As pessoas não devem cancelar uma tomografia por medo de ir ao hospital ou deixar de fazer uma consulta com o oncologista".

Áreas livres de Covid

Os especialistas defendem a criação de protocolos em todos os âmbitos da saúde pública para a implantação de "áreas livres de Covid" para atendimento de pacientes câncer nos hospitais, de forma que esses locais possam seguir com os atendimentos oncológicos seguindo as normas de prevenção do coronavírus. "Esses caminhos não são nada mais do que dependências diferenciadas e com cuidados, em termos de álcool em gel, lavagem de mãos e proteção facial, em que os pacientes se sintam seguros em poder continuar o tratamento ou buscar ajuda", pontua Maira Caleffi. 

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), fazem parte do grupo de risco para a Covid-19 pessoas com câncer que estejam em tratamentos de quimioterapia ou radioterapia, que tenham feito cirurgia há menos de um mês ou que façam uso de medicamentos imunossupressores.

O que dizem Estado e município

De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG), em Minas Gerais, foram diagnosticados 39.733 casos de câncer no SUS e 24.414 óbitos, no ano passado. O Estado tem 35 hospitais habilitados como unidades ou centros de assistência de alta complexidade em oncologia. Com a pandemia, leitos de parte desses hospitais podem ser utilizados para atendimento de pacientes com coronavírus.

Segundo a pasta, o fluxo de referência para acesso ao diagnóstico e consultas de câncer é norteado pela Programação Pactuação Integrada (PPI) e regulado pelas Secretarias Municipais de Saúde. Os Consórcios Intermunicipais de Saúde também ofertam serviços assistenciais, como consultas e exames.

A pasta informou que a orientação do Estado para os hospitais habilitados é a continuidade de cirurgias eletivas oncológicas e de atendimentos para primeira consulta agendada por diagnóstico de câncer ou com alta suspeição de câncer, de pacientes com diagnóstico estabelecido de câncer em fase de estadiamento e planejamento de tratamento oncológico e de pacientes já em tratamento oncológico, por cirurgia, quimioterapia ou radioterapia, atendendo as orientação de isolamento e contenção.

Já a Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte informou que não houve diminuição ou qualquer contingenciamento dos atendimentos oncológicos. Segundo a pasta, "todo paciente com diagnóstico oncológico tem o encaminhamento mantido dentro dos serviços de saúde disponíveis na capital para tratamento complementar indicado pelo médico".

A SMSA informou, ainda, que os centros de saúde estão mantendo o atendimento às pessoas "com quaisquer queixas clínicas agudas, conforme rotina habitual, durante todo o horário de funcionamento.

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