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Representatividade

Travessia feminina

Espetáculos da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança discutem o universo das mulheres

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Estreia. “Orfãs de Dinheiro” é o primeiro projeto autoral da atriz Inês Peixoto
Estreia. “Orfãs de Dinheiro” é o primeiro projeto autoral da atriz Inês Peixoto
PUBLICADO EM 02/02/20 - 03h00

A necessária – e nem sempre conquistada – emancipação econômica da mulher, a tentativa de impor o silenciamento feminino, as relações tóxicas às quais são submetidas, a condiçáo do corpo trans e a autoafirmação enquanto personagem protagonista na sociedade. Entre centenas de produções que integram a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, algumas peças têm algo em comum: abordar o universo feminino em suas temáticas. Nove delas (algumas ainda em exibição) foram reunidas na mostra “Um olhar sobre o feminino”. 

É o caso do espetáculo “Luta”, em que a atriz Teuda Bara visita suas memórias, ficcionaliza sua trajetória de quase 50 anos de carreira, fala sobre conquistas e retrocessos, e conta casos que encontram eco na vida de outras mulheres. “É um espetáculo legal, divertido, fala da minha luta para sobreviver na arte”, diz Teuda. Arte que, segundo ela, tem o papel de denunciar desigualdades e preconceitos “em um momento em que se tem um discurso machista e homofóbico muito forte”. “E o atual governo contribui muito para que essas coisas aconteçam”, critica a atriz. 

“O que me move é exatamente essa reflexão sobre o estado de vulnerabilidade que as mulheres se encontram e sempre se encontraram há séculos. O processo de escrita foi extremamente forte”. A fala é da atriz Inês Peixoto, que assina concepção, texto e figurino de “Órfãs de Dinheiro”, seu primeiro projeto autoral. Num registro tragicômico, ela assume três personagens que se veem em situações complicadas relacionadas a autossustentação, “uma questão econômica imposta à mulher”, exploração sexual, maternidade abandonada e outros contextos. “Vivo uma empregada doméstica, por exemplo, figura bastante desrespeitada na nossa hierarquia social”, conta Inês. 

Para a atriz e dramaturga Livia Gaudêncio, lançar esse olhar sobre a mulher e suas multiplicidades gera debates necessários que atendem a uma demanda social. Ela é autora e está no elenco de “Princesa Falalinda Sem Papas na Língua”, espetáculo infantojuvenil que questiona o silenciamento feminino ao colocar em cena uma princesa empoderada, longe do ultrapassado estereótipo de submissão ao homem. A masculinidade tóxica também entra no jogo com um rei que não pode chorar. Encorajar o pensamento crítico nas crianças, segundo a dramaturga, é um dos principais objetivos da peça: “É impressionante. Não podemos subestimar a capacidade das crianças de assimilar essas mensagens. O grande lance é jogar essa semente. O que acho mais legal é que abre para uma pós-discussão entre a família”. 

Corpo trans. Protagonista da performance “Protótipo para "Cavalo: Corra, Aisha, Corra!”, que reúne poesia e música em um manifesto sobre a identidade e a humanização do corpo trans – muitas vezes não aceito pela sociedade –, a atriz Aisha Brunno considera fundamental colocar o tema em debate, sobretudo em um contexto em que o lugar de visibilidade é restrito se a pessoa é uma mulher trans, como é o caso dela.

“Para uma travesti, sempre tem alguns entraves. Sinto que há uma dificuldade em todas as instâncias, não só no nosso fazer cultural. É fundamental naturalizar e humanizar a travesti, muitas pessoas não conseguem ver que há um ser humano ali. Essa desumanidade tem que acabar", observa. 

Programe-se

Hoje, na Funarte (rua Januária, 68, Centro), acontecem as últimas exibições das peças “Protótipo para Cavalo: Corra, Aisha, Corra!”, às 19h, e “Jornada”, às 20h. No mesmo local, o público ainda confere os seguintes espetáculos: “Luta”(de quinta a domingo, às 20h),“A Jagunça” (de 12 a 16, sempre às 20h) e “Maternar”(de 13 a 16, às 19h). Também neste domingo, o Palácio das Artes recebe duas produções da campanha: “Princesa Falalinda Sem Papas na Língua”, às 16h, no Grande Teatro, e “Orfás de Dinheiro”, no Teatro João Ceschiatti, às 19h. Nos postos Sinparc e pela internet, os ingressos custam entre R$ 10 e R$ 20. Já na bilheteria, o valor da entrada varia de acordo com a peça.

Imagem da mulher através dos séculos é tema de trilogia

Para concluir “Imagem da Mulher no Ocidente Moderno”, lançado em dezembro passado e dividido em três volumes – “ Bruxas e Tupinambás Canibais”, “Maria e Maria Madalena” e “Stars de Hollywood” –, a socióloga Isabelle Anchieta mergulhou em uma obsessiva pesquisa de oito anos, que a levou a países como Turquia, Espanha, Itália, Alemanha e Suíça. A escritora buscou pinturas, esculturas, filmes e panfletos para analisar a individualização e humanização da mulher desde a Idade Média até o século XX. “Elegi as imagens da mulher por serem ambíguas personagens que atraem, em torno de si, os mais contraditórios sentimentos sociais”, afirma a pesquisadora. 

O que te levou a pesquisar o tema? Como pesquisadora, eu não encontrava nos livros a compreensão de entender o papel ambíguo da mulher. Ao longo da pesquisa, vi como as mulheres subverteram o sentido da imagem, criando um sentido absolutamente contrário ao pretendido. É interessante ver como elas não estavam submetidas a uma representação. Minha pesquisa é só ambiguidade. Mostro que as mulheres provocaram sentimentos contraditórios nos homens. Mais que misoginia, houve, sobretudo, uma marginalização atrativa. Muitas mulheres foram queimadas porque, supostamente, provocaram feitiço sobre os homens, que se apaixonaram. Hoje, sabemos que é uma narrativa que representava a perda de controle dos sentimentos. Vale lembrar que as mulheres nem sempre foram vítimas de suas representações, elas também lutaram e souberam fazer uso do fascínio que provocavam.

Por que dividir a pesquisa em uma trilogia? A editora queria fazer um livro só, seriam mais de 600 páginas. Mas eu quis dividir por várias razões, a primeira delas é conceitual – cada livro tem uma lógica. No primeiro, trabalho com a diabolização da mulher e como a iconografia das tupinambás canibais vão circular e influenciar a iconografia das bruxas na Europa. São duas imagens responsáveis pela construção negativa da mulher. Depois, trabalho com a representação feminina, o culto mariano capaz de orquestrar as relações sociais, a pedagogia da boa esposa, do controle feminino, que mistura religião e moral. O terceiro é uma consequência da dessacralização quando, no início do século XX, cria-se uma aura midiática, uma imagem universal que, pela primeira vez, se torna real. Há o desejo de ser reconhecida. As mulheres deixam de cultuar a imagem de Maria para querer ter seu próprio rosto. De alguma forma, a conclusão aponta para a sociedade das redes sociais.

E essa representação da imagem da mulher se modificou muito ao longo dos anos?  Sim, radicalmente. A “star”, por exemplo, é a legitimação da transgressão feminina. Elas fumam, abordam os homens, têm dinheiro, acesso aos objetos de consumo, são mulheres que têm liberdade, legitimam o divórcio. Vejo o livro como peça importante para valorizar a trajetória das mulheres. Quando li Simone De Beauvoir me choquei muito porque fui entendendo o processo de construção da imagem da mulher. É importante entender o que está por trás dessa imagem construída por homens, por interesses, por jogos de poder. Quando entendemos isso, conseguimos nos posicionar. É fundamental as mulheres se desligarem dos fantasmas que até hoje atuam sobre nós. Não tem como desligar totalmente, é verdade, mas é importante saber a origem e como fomos nos desconstruindo. Minha pesquisa é para mostrar a construção e a desconstrução da imagem da mulher. De certa forma, é uma biografia da mulher. 

É possível identificar qual é a imagem da mulher nos dias atuais ou essa é uma definição mais fluida?  O que hoje define a mulher é a pluralidade e a quebra de estereótipos, que cada vez mais se enfraquece. Não faz muito sentido hoje, por mais que persistam, infelizmente, em estigmatizar e desqualificar uma pessoa pela cor, pela nacionalidade ou pelo gênero. Isso cada vez tem menos força, não se justifica. Ao longo da pesquisa, percebi que devemos não só ao feminismo, mas também às mulheres do passado. É um processo histórico muito longo, as famosas bruxas nada mais eram que mulheres de sexualidade livre, viúvas que voltavam a ter relações sexuais e não eram aceitas pela sociedade. As mulheres sempre buscaram espaço. Temos que honrar essa história, o feminismo é consequência de um processo longo e só foi possível por um processo de humanização e individualização crescente da mulher. 

Rádio Super

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