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Acílio Lara Resende

Somos os maiores especialistas do mundo em superficialidades

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Somos os maiores especialistas do mundo em superficialidades
Somos os maiores especialistas do mundo em superficialidades
PUBLICADO EM 28/04/11 - 00h00

Meu irmão Otto Lara Resende, de saudosa memória, em entrevista ao amigo de infância Paulo Mendes Campos, disse que se considerava um especialista em ideias gerais: "Sou jornalista, brincou, especialista em ideias gerais. Sei alguns minutos de muitos assuntos. E não sei nada. Desisti de saber. Espio, leio por alto, não quero saber".

A resposta à pergunta "Quem é OLR?" tinha, na época, razão de ser. Na verdade, Otto era um inesgotável devorador de livros.

Lembrei-me dessa boutade em razão da versão que se criou em torno do artigo escrito pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na revista "Interesse Nacional". Otto, ao dizer o que disse, talvez estivesse pensando no brasileiro de modo geral, quem sabe em nossos políticos. Nossos representantes espalhados pelo país, em boa parte, com as exceções de praxe, não leem nem sequer os projetos que assinam, são só especialistas em ideias gerais ou em superficialidades, como ficou claro no programa "CQC", da TV Bandeirantes.

Com muito mais razão, não leem livros nem artigos como o que está sendo objeto de gabarolices de integrantes do PT e (inacreditável!) do próprio PSDB.

Poucos leram - eis o que sucedeu - o artigo do ex-presidente. O esperto Lula, então, retirou do contexto um pequeno texto, que pouco ou nada tem a ver com sua ideia central, e dele se aproveitou para falar mal de quem tem - e ele sabe disso - lugar garantido na história. O governo de FHC foi o responsável pelo fim da inflação que nos sufocava (e que hoje nos ameaça novamente), pelo sucesso da telefonia celular, por exemplo, e, também (como dói o cotovelo...) não só pelo êxito do seu sucessor, mas pela sua democrática eleição.

Tem razão Márcio Garcia Vilela quando diz que a polêmica em torno do artigo nos remete à campanha dos marmiteiros, em 1945.

Com a deposição do velho ditador Getúlio Vargas, o movimento queremista (em seu favor) entrou em declínio e a candidatura do general Eurico Gaspar Dutra em quase colapso. O brigadeiro Eduardo Gomes tinha tudo para ser, na época, o próximo presidente da República.
Inconformado com a situação, o gaúcho Hugo Borghi, que enriquecera na ditadura, amedrontado com o que lhe estaria reservado, interpretou maldosamente a seguinte frase do brigadeiro: "Não necessito dos votos dessa malta de desocupados que apoia o ditador para me eleger presidente da República".

O vocábulo malta quer dizer, também, "conjunto ou reunião de gente de condição inferior". Daí surgiu, então, o termo marmiteiros. O candidato, na realidade, se referia ao bando, à súcia ou à corja de vagabundos que se aproveitaram da ditadura.

A campanha dos marmiteiros foi a maior causa da derrota da UDN, que patrocinava a candidatura do brigadeiro, que, na versão safada dos adversários, não queria os votos dos mais humildes.

Lula se prevalece, agora, do texto fora de contexto para dizer que FHC não deseja o voto do povão. Não lhe interessa o que disse o ex-presidente, mas a sua versão (dele, Lula) do que FHC escreveu.

Ninguém poderá dizer que Lula não tenha, como disse outro dia o jornalista Merval Pereira, "timing político", mas, concluiu Merval, "desde que não se leve em consideração valores republicanos como seriedade no debate, nem nos incomode a prática de distorcer as palavras do adversário para ganhar a discussão no tapetão ideológico".

Que castigo merece Lula?

Se dependesse de mim, ler o artigo de FHC...

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