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Cristovam Buarque

A ressurreição pelas urnas

Quando o povo prefere o risco do autoritarismo ao caos dos civis

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PUBLICADO EM 09/11/18 - 04h00

O livro “A Ressurreição do General Sanchez”, publicado pela Editora Paz e Terra, em 1981, reeditado em 1997 pela Geração Editorial, conta a história de um ditador latino-americano que, percebendo o esgotamento de sua ditadura, decide terminar seu regime e escolher um substituto. Usando as técnicas da engenharia genética, manda fabricar um clone. O herdeiro seria idêntico ao pai, mas, enquanto crescia, foi mudando de personalidade e de ideologia.

Descobriu-se depois que a CIA havia produzido outro clone de direita, neoliberal; o Vaticano tinha produzido um democrata-cristão, carola. Os clones foram sendo substituídos clandestinamente pelos serviços de espionagem dos países. O ditador aceitou pacientemente essa variação até descobrir que os soviéticos também tinham seu clone. Comunista ele não aceitou.

O general mandou matar o último clone, o comunista, e engravidou três mulheres para escolher como seu herdeiro o primeiro filho que nascesse. Para surpresa de todos, cada mulher deu à luz cinco meninos, todos com cara e mãos de demônio. O ditador, então, legalizou os partidos e autorizou uma eleição livre, universal, desde que disputada entre os 15 meninos, seus filhos demônios. Não esperava o caos provocado por uma eleição com tantos candidatos, todos com alta taxa de rejeição pelos eleitores, que não queriam escolher entre diabos, ainda que filiados a partidos diferentes.

Ao sentir os limites de seu poder para controlar e organizar sua sucessão, o general mandou dizer ao povo que tinha decidido morrer, para ressuscitar quando o país precisasse dele outra vez. E desapareceu.

Em estilo de realismo fantástico, o livro descreve o período democrático como um grande Carnaval, em que a população brinca nas ruas e os constituintes dentro do Parlamento, enquanto a desordem se espalha, até que o general ressuscita, durante a tristeza e a ressaca da Quarta-Feira de Cinzas histórica.

Ainda é cedo para dizer se essa ficção, anterior à redemocratização no Brasil, se assemelha à história recente de algum país. Mas é possível dizer que o período entre o fim de uma ditadura e o renascimento de outra se parece com a narrativa que o livro faz: os democratas civis perdem mais tempo brigando entre eles e olhando para as reivindicações de cada grupo no presente do que imaginando a melhor forma de construir um futuro para o país. Até que o povo, cansado do caos, da corrupção, do crime, da pobreza, da desigualdade, termina exigindo a volta da ditadura.

Quase 40 anos depois de publicada, a obra exige uma nova versão, em que a ressurreição se daria pelas urnas, não pelas armas. Que mostre o desânimo do povo preferindo o risco do autoritarismo e da intolerância ao caos criado por civis perdidos em suas brigas partidárias, sem espírito público, sem perspectiva de longo prazo. E descreva os erros cometidos pelos políticos democratas ao longo do período em que o ditador estava morto, esperando voltar.

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