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Cristovam Buarque

As redefinições da China

A revolução tecnológica exige revisões de nossos conceitos

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PUBLICADO EM 07/12/18 - 03h00

Estive na China, a convite e com patrocínio total da Guangdong University of Technology, para participar de seminário sobre inovação nos Brics e a comunidade global. Aproveitei para adiantar meu estudo sobre porque a China deu certo.

Trinta anos atrás, o PIB da China era de US$ 312 bilhões; o do Brasil, US$ 330 bilhões. Hoje, o PIB chinês é de US$ 12,2 trilhões, e o do Brasil, US$ 2 trilhões. Em poucos anos, conseguiram a inclusão de 100 milhões de pessoas na classe média, com renda per capita equivalente à média da Europa. As cidades se ligam por uma rede de 28 mil quilômetros de trens-bala – a Europa tem 9.300 km. Surpreende como as cidades são modernas, limpas, com calçamentos impecáveis, sem pobreza visível e com paz.

Ainda mais surpreendente é como o pensamento chinês promove redefinições sobre ideias dos tempos atuais nas universidades. Estão redefinindo conceitos que não se adaptam às exigências do bom funcionamento social nos tempos da robótica, da globalização e dos limites ecológicos ao crescimento da produção.

Devido à política de crescimento industrial, Pequim e outras cidades chinesas estão entre as mais poluídas do mundo. Por isso, o governo chinês tomou medidas para controlar a poluição: táxis são obrigados a usar energia elétrica, e os motoristas pagam fortunas para emplacar carros novos movidos a combustível fóssil.

As manifestações recentes na França, contra o aumento no preço do combustível fóssil, são exemplo da contradição entre a democracia dos eleitores de hoje e a democracia comprometida com o futuro. Na democracia chinesa, os membros do partido discutiram por anos esse assunto e decidiram reduzir a taxa de crescimento em nome do equilíbrio ecológico.

É certamente um conceito de democracia diferente do ocidental. Quando perguntei sobre a liberdade pessoal de ir e vir – na China, para emigrar de uma província a outra, é preciso autorização do governo central –, perguntaram a mim se no Rio de Janeiro e em outras grandes cidades do Brasil um cidadão pode caminhar livremente nas ruas, ou se a violência impede a livre circulação. Explicaram ainda que lá existe planejamento de instalações educacionais e hospitalares e a migração livre desarticularia o equilíbrio entre a oferta e a demanda dos serviços.

O conceito de igualdade, que até o período revolucionário era absoluto – todos com mesma renda e consumo –, passou a ser relativo. O governo chinês se propõe a erradicar a pobreza, mas tolera a desigualdade de renda e consumo, que decorre do mérito do cidadão, graças ao talento, à persistência e à criatividade.

É cedo para saber se as redefinições na China vão levar o Ocidente a rever seus conceitos ou se o povo chinês vai adotar conceitos ocidentais. Mas não se pode negar que a revolução tecnológica em marcha, simultânea à globalização e aos limites ecológicos, exige revisões de nossos conceitos. E não se pode negar que os chineses tentam inventar a modernidade, na prática do desenvolvimento e na teoria de conceitos.

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