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Daniel Barbosa

O edifício XI

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PUBLICADO EM 27/10/17 - 03h00

De praticamente qualquer ponto da cidade é possível ver o edifício, tanto por seu gigantismo quanto pelo fato de estar situado em um ponto alto da geografia urbana. Mesmo das periferias mais longínquas, quem lançar o olhar para a região Leste da turbulenta urbe verá a grande massa cinzenta de concreto que se eleva quase no topo da Serra, como se fosse um desproporcional monólito retangular, de altura que, se não chega a ser expressiva, somada ao comprimento e à largura da construção, é suficiente para se impor com largueza sobre todos os outros prédios que, com maior ou menor distância, o cercam. À noite, apenas entrevista, a edificação é particularmente inquietante, sobretudo se não há luzes acesas na face que se avista, o que gera a impressão de um enorme buraco negro, que parece querer engolir tudo a seu redor, cravado naquele ponto da cidade.

A aparência do edifício e a impressão que causa não melhoram com a proximidade. Quem chegar ao endereço em que está situado e o contornar, apenas vai confirmar que se trata, efetivamente, de uma grande massa cinzenta. Por qualquer lado que se olhe, a visão que se tem é de fachadas enegrecidas, manchadas e descascadas, que talvez nunca tenham sido pintadas desde que a monstruosa construção abriu suas portas, no final da década de 1960, para os primeiros moradores. Mas esse aspecto decadente e soturno fica em segundo plano diante do pasmo causado pelo fato de as janelas dos apartamentos serem desalinhadas, nas faces do edifício que acompanham o declive da Serra e também nas laterais planas, onde se encontram a portaria e as entradas da garagem. Não há quem, passando pela rua e observando essa anomalia arquitetônica, não seja tomado pela curiosidade de saber como é o interior do edifício. É como se em um mesmo andar houvesse diferentes níveis, ou como se o pé-direito dos apartamentos variasse, uns mais baixos, outros mais altos.

E quem conhece o edifício por dentro sabe que, com efeito, trata-se de uma construção que, em vários aspectos, carece de sentido. Não só há diferentes níveis em um mesmo andar, acessíveis por pequenas escadas de três ou quatro degraus, como também há corredores que não levam a lugar nenhum, basculantes próximos ao teto, de modo que nem mesmo uma pessoa de estatura avantajada consegue alcançar, pilastras aparentemente sem função, uma vez que não há outras correspondentes no andar de cima ou no de baixo, e iluminação desigual, com algumas dependências na penumbra e outras que lembram um hospital ou uma agência bancária, tamanha a claridade que lâmpadas muito potentes espalham pelo lugar.

O edifício possui, ainda, um enorme vão central, ao qual as janelas de alguns apartamentos, que não têm vista para a rua, dão acesso. Tristes apartamentos, cuja única iluminação natural é a que desce por esse vão e que, portanto, dura apenas um curto período do dia, entre as últimas horas da manhã e as primeiras após o meio-dia. Lá embaixo, vê-se o chão da garagem, cinzento como a parte externa do prédio. Também por esse vão central inexplicáveis escadas de metal ligam uns andares a outros, aparentemente sem nenhuma lógica: uma delas sobe do terceiro ao sétimo, outra tem uma base no sexto andar e se eleva até o penúltimo, o décimo segundo, uma terceira desce do quinto andar até a garagem, e a quarta escada liga o oitavo ao décimo primeiro.

Os moradores antigos estão, naturalmente, acostumados com a peculiar e bizarra arquitetura do edifício, mas tomar contato com suas entranhas pela primeira vez pode ser uma experiência verdadeiramente aterradora.

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