Recuperar Senha
Fechar
Entrar

Daniel Barbosa

O edifício XII

Enviar por e-mail
Imprimir
Aumentar letra
Diminur letra
\sdf
PUBLICADO EM 10/11/17 - 03h00

Gumercindo tem o sono leve. Militar reformado, ele argumenta para si mesmo e para quem queira saber que, por força do ofício que exerceu durante toda a vida, está em permanente estado de alerta. Não raro, levanta-se no meio da madrugada cuidadosamente, para não acordar a esposa, Sophia, com quem vive naquele apartamento no último andar do edifício no alto da Serra, e percorre todos os cômodos da casa, verificando se está tudo em ordem. Depois vai para a janela, onde costuma permanecer um longo tempo, entre a contemplação das poucas luzes acesas ao longe e a atenção ao que acontece na rua logo abaixo – ou talvez seja melhor dizer ao que não acontece na rua logo abaixo, já que na alta madrugada a quietude reina naquela região.

Certa feita, quando cumpria sua ronda doméstica noturna, Gumercindo teve a certeza de ouvir um barulho, que não conseguiu identificar se vinha do apartamento vizinho, onde mora seu compadre e síndico do prédio, Gilberto, ou do corredor, o que, em seu entendimento, merecia uma averiguação, afinal, quem poderia estar transitando pelas áreas comuns do edifício àquelas horas, quase três da madrugada? Beirando os 80 anos, Gumercindo já não tinha, obviamente, o vigor físico de outrora, mas seu juízo parecia não aceitar muito bem esse fato. Não raro ele era surpreendido em atitudes policialescas, abordando os moleques da favela na rua, inquirindo moradores que considerava terem aparência suspeita ou tendo longas conversas com Gilberto a respeito da segurança do prédio. Era, em suma, uma espécie de vigilante ancião.

Intrigado com o barulho que ouviu, foi até o armário e pegou seu revólver calibre 38, pôs na cintura da calça do pijama, abriu a porta de saída e se lançou, cautelosamente, no corredor. Seguia na penumbra, já que a maioria das lâmpadas daquele 13º andar estavam queimadas. Ele, aliás, vivia cobrando de Gilberto que fosse mais cioso com os reparos necessários, sobretudo os que podiam implicar maior vulnerabilidade do edifício ou de seus moradores. As lâmpadas queimadas faziam parte desse rol. Gumercindo caminhou até uma das extremidades do corredor e, quando voltava, ouviu novamente um rumor grave. Teve a certeza que o barulho veio do apartamento 1309, em frente ao qual passava naquele momento. Ficou parado um tempo, encostou o ouvido à porta, atento, e, como não escutou mais nada, resolveu girar a maçaneta. Para seu espanto, viu que a porta não estava trancada.

Sua atenção redobrou. Ou o morador era um completo relapso que havia esquecido a porta aberta, e nesse caso mereceria uma reprimenda, por colocar em risco a própria segurança, ou o apartamento tinha sido invadido. Abriu a porta, mas permaneceu hesitante sob o umbral. Entrar configuraria invasão de domicílio, pensou consigo. Mas, por outro lado, não entrar poderia significar deixar o morador à mercê de um bandido, ou, ainda, ser omisso frente a um crime, um assalto, o que nunca foi de seu feitio. Resolveu entrar na sala escura. Mal tinha dado os primeiros passos apartamento adentro e mais uma vez ouviu um barulho, desta feita claramente o de uma porta se abrindo ou fechando. Ergueu a arma e se pôs em posição de tiro, olhando para o corredor que, supunha, caso aquele apartamento fosse igual ao seu, levava da sala aos quartos. Vinda de algum lugar daquele mesmo corredor, viu uma luz frágil se insinuar. Avançou naquela direção pensando que, enfim, tudo o que aprendeu ao longo dos anos de profissão poderia novamente, desde que se aposentou, ser posto em prática. Estava apreensivo, um pouco assustado, mas, de algum modo, também feliz.

O que achou deste artigo?
Fechar

O edifício XII
Caracteres restantes: 300
* Estes campos são de preenchimento obrigatório

comentários (1)

Enviar Comentário

Li e aceito os termos de utilização
Compartilhar usando o Facebook
ou conecte-se com

ATENÇÃO

Cadastre-se para poder comentar

Comentar com Facebook Comentar com Twitter