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Daniel Barbosa

O edifício XIII

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PUBLICADO EM 08/12/17 - 03h00

Espelho e síntese da insana e decadente capital, aquele velho edifício no alto da serra tem a precariedade como seu traço mais marcante. Não só a precariedade estrutural, mas também das relações entre os moradores, que parecem viver em estado de iminente confronto, cheios de desconfiança, insegurança e neuras de toda ordem. Dos habitantes das dezenas de apartamentos que se espelham pelos 13 andares do prédio, são poucos os que se dão. Os mais antigos se tratam de forma protocolar, mas sempre cheios de ressalvas. A impressão que se tem é que, se pudessem, evitavam qualquer tipo de contato, mas a manutenção do que consideram uma ordem estabelecida naquele microcosmo exige a interação entre eles, então, a contragosto, interagem, quase sempre como se estivessem conspirando.

Afora o grupo não muito numeroso daqueles que vivem no edifício desde sua fundação, ou se mudaram para lá pouco tempo depois, há uma rotatividade muito grande de inquilinos, de forma que praticamente não se estabelecem relações entre os moradores recentes. Como são tratados com certo desdém pelos mais antigos, também criam uma espécie de casca, tornam-se ríspidos com o tempo, abastecidos de mau-humor, combustível para desavenças que medram com facilidade. Uma infiltração no teto ou na parede, um barulho incômodo vindo do vizinho, um saco de lixo deixado no corredor de um andar, um vaso de planta malposicionado, um elevador que demora, tudo isso e mais alguma coisa é motivo suficiente para que se inicie um litígio. Não se ouvem muitas conversas pelas áreas comuns do prédio, mas sim hostilidades e imprecações em alto e bom som.

As relações azedas estão, claro, diretamente relacionadas com outros níveis de precariedade do edifício, o que, diga-se, a própria fachada já revela. Por sua localização geográfica, elevado sobre o traçado urbano, o prédio foi batizado como Terraço Vera Cruz, mas, por ação de algum vândalo ou por acidente provocado por alguma mudança, o nome, expresso em letras de metal encravadas sobre a porta de entrada, perdeu o T, ficando, assim, erraço Vera Cruz. Tal avaria aconteceu quando o edifício era ainda recém-construído e começava a ser habitado, e nunca ninguém se deu ao trabalho de fazer o reparo necessário.

Pois bem, no erraço Vera Cruz nada funciona a contento, tudo é meio deteriorado e parece não haver o interesse dos velhos moradores em tentar remediar qualquer dos problemas. O síndico, Gilberto, é um sujeito recluso a quem ninguém ou quase ninguém tem acesso. No geral, as demandas, clamores, reclamações ou sugestões dos condôminos que ainda se preocupam em fazer do edifício um lugar minimamente habitável vão dar em lugar nenhum. Paira no ar, naturalmente, a desconfiança de que o condomínio pago mensalmente por cada proprietário ou inquilino seja revertido para as contas bancárias pessoais do síndico e do decrépito grupo próximo a ele, formado por pessoas que, desde tempos imemoriais, sempre se revezaram no posto, elegendo-se uns aos outros.

Há, entre moradores antigos e recentes, aqueles que parecem estar alheios a tudo. Dona Izoraide e seu Roberto, que moram no 1006; os dois jovens rapazes que dividem o 601; o velho pintor do 710, que todos os dias de manhã sai com seus quadros sob o braço para expor e tentar vender na praça do bairro; Salete, que vive com seu filho paraplégico no 106; o bebum do 411; e a moça do 501. Eles passam a clara sensação de que realmente não estão nem aí para nada e, talvez por isso, consigam manter entre si uma relação amistosa. Em suma, as pessoas mais interessantes do erraço Vera Cruz são aquelas que parecem não pertencer àquele lugar.

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